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sábado, outubro 15, 2011

O silêncio de quem sofre (Salmo 62)

Por Thomas Tronco

O marquês de Condorcet contou, certa vez, que o grande matemático e físico Leonhard Paul Euler (1707-1783) viveu em São Petersburgo nos dias do tirânico domínio da imperatriz Anna. Quando ele teve a oportunidade de se mudar para a Alemanha, a pedido do rei da Prússia, a rainha-mãe o procurou desejosa de conversar com o famoso estudioso. Contudo, Euler não se mostrou uma pessoa de muitas palavras. Suas respostas monossilábicas acabaram incomodando a rainha, fazendo-a criticar sua timidez e indagar-lhe: “Por que não queres me falar?”. Diante disso, o matemático explicou a razão do seu silêncio: “Eu vim de um lugar onde, se um homem diz uma palavra, ele é enforcado. Pessoas quietas e pacíficas raramente vêm a sofrer danos ou causar danos”.
 
Esse triste relato nos leva à reflexão sobre os tipos de reação à tirania e à perseguição. Um modo de reagir é, em meio à revolta, esbravejar contra a injustiça e gritar, aos quatro ventos, as razões do sofrimento, exigindo mudanças e alívio. Os livros de história estão cheios de capítulos heróicos que narram atitudes como essa que serviram de prelúdio ou de motivação para transformações sociais e políticas. Mas, também, há um grande vácuo no qual pessoas poderiam ter feito diferença e não fizeram, simplesmente porque, manifestando-se contra a injustiça, tiveram suas vidas ceifadas muito cedo. Por outro lado, um modo de agir, diferente do primeiro, é suportar o sofrimento em silêncio para não fazer algo que produza maiores consequências e pesares.

Davi viveu situações em que lançou mão do segundo tipo de reação a fim de depender totalmente do Senhor. Uma dessas situações surge como pano de fundo do Salmo 62. Nele, Davi se dirige aos seus inimigos nos seguintes termos (v.3): “Até quando arremetereis vós contra um homem?” (‘ad-’anâ tehôtetû ‘al ’îsh). Essa é uma declaração de quem está no limite, com a paciência e a disposição de administrar o sofrimento chegando ao fim. Não é para menos. A perseguição estava intensa e prestes a causar a ruína completa do salmista: “Todos vós sois assassinos tal qual uma parede que cai, um muro a ponto de ruir” (teratsehû kullekem keqîr natûy gader haddehûyâ). Davi quer dizer que seus perseguidores eram tão perigosos, em seu intento de matá-lo, quanto os riscos de morte em um desabamento que deixa soterradas as suas vítimas.

Utilizando-se ainda da figura do desabamento, Davi fala da dedicação integral dos inimigos para prejudicar seu nome e sua honrosa posição (v.4): “Eles ficam conspirando para derrubá-lo da sua condição digna” (’ak misse’etô ya‘atsû lehaddîah). A ideia de conspirar ou de ficar planejando a derrocada do salmista mostra que essa não é uma perseguição aberta ou de caráter militar. Também não se trata de inimigos externos, mas de gente próxima que mantém uma postura falsa, já que “eles se comprazem na falsidade”. Sendo assim, a aparência desses homens perigosos e hipócritas, diante de Davi, era de pessoas de bem, amigos do salmista. Porém, na verdade, de forma diametralmente oposta, eles nutriam ódio e aguardavam a oportunidade de atacar, visto que “com sua boca eles bendizem, mas no seu íntimo eles amaldiçoam” (bepîw yebarekû ûbeqirbam yeqallû).

Diante dessa descrição, podemos perguntar: “Já que Davi sabia das tramas e do ódio dos inimigos, por que, então, ele não tomava providências quanto a isso?”. Como o salmo é dirigido a Jedutum, a quem Davi instituiu como cantor e instrumentista a fim de louvar a Deus (1Cr 16.41; 25.6; 2Cr 35.15), é certo que ele foi escrito quando o salmista era rei sobre todo o Israel. Logo, tendo poder real, por que Davi não deu cabo dos traidores? Não sabemos o porquê. Talvez, envolvesse pessoas na nobreza, de modo que a solução poderia gerar uma crise política. Ou, talvez, o inimigo fosse da sua própria casa e Davi não quisesse punir a quem amava. Seria o caso de Absalão que, por quatro anos (2Sm 15.7 cf. vv.1-6), trabalhou para ganhar a simpatia do povo e gerar descontentamento com relação ao rei (2Sm 15.1-6) – algo que era impossível fazer sem que o rei soubesse. Mas, sendo filho do próprio salmista, isso explicaria a falta de providências duras do rei e a ausência de um clamor a Deus pela ruína dos adversários, como ocorre em outros salmos. Finalmente, é também possível que Davi soubesse da existência de oposição, mas não identificasse, exatamente, quem eram os opositores.

Assim, sem poder resolver por si a situação, o rei lança mão de um recurso legítimo: esperar em Deus. Essa declaração, com pequenas diferenças no texto hebraico, Davi faz duas vezes (vv.2,3 e vv.5,6). Em primeiro lugar, surge o alvo da confiança: o Senhor. Ele diz (v.2): “Somente por Deus minha alma se aquieta” (’ak ’el-’elohîm dûmîyâ nafshî). Se alguém podia dar paz ou calma a Davi em uma situação tão terrível como aquela, esse alguém não era ele mesmo. Na verdade, só um poderia produzir paz em meio à guerra: o próprio Senhor. Assim, Davi não confia no seu cargo real, nem na sua guarda pessoal, nem tampouco em recursos questionáveis. O alvo da sua confiança é o Deus bondoso e soberano.

Contudo, essa confiança não existe a despeito dos sentimentos do salmista. Ela interfere completamente no modo como Davi se comporta enquanto espera em Deus. Assim, o texto nos revela o modo da confiança: a paz (v.2). O mesmo texto que traduzimos acima, se tomado de modo literal, significa: “Somente em Deus há silêncio para minha alma”. A palavra “silêncio” (dûmîyâ) também significa “descanso”, “quietude” e “repouso”. Ela aponta para o fato de Davi ter deixado de lado o desespero que leva a ações impensadas e extremas. Em lugar disso, confiante em Deus, Davi permanecia quieto a fim de não provocar outros problemas, nem desagradar o Senhor.

Essa forma de proceder não se devia à covardia de agir ou à tolice do rei. Ela se baseava em algo real e superior à lógica humana. O próprio Davi apresenta a razão da confiança: a proteção de Deus (v.2): “A minha salvação vem dele” (mimmennû yeshû‘atî). Diferente do que críticos do cristianismo afirmam, Deus não é o ópio do povo. A figura do Senhor não produz uma falsa sensação de segurança. Deus se relaciona com seus servos e, de fato, olha para suas necessidades a fim de atendê-las. Isso não significa sempre ausência de problemas, mas, também, conforto, proteção e firmeza nas angústias (v.3): “Somente ele é a minha rocha e a minha salvação” (’ak-hû’ tsûrî wîshû‘atî). Para completar a figura, Davi introduz a imagem de uma guerra e um cerco militar para dizer que Deus é, para ele, como aquelas fortalezas dentro das cidades fortificadas, mais altas que as próprias muralhas: “Meu alto refúgio” (mishgavvî). O resultado dessa certeza se vê na declaração final: “Eu não serei abalado” (lo’-’emmôt). Um modo paralelo e enfático de dizer tudo isso é (v.7): “De Deus vem a minha segurança e a minha honra. A minha rocha forte e o meu refúgio estão em Deus” (‘al-’elohîm yish‘î ûkevôdî tsûr-‘uzzî mahsî be’lohîm).
Essa é uma esperança tão gloriosa que Davi não a guarda para si. Ele compartilha com seus súditos, dizendo (v.8): “Confiem nele em todo tempo, ó povo. Lancem diante dele seus corações. Deus é o nosso refúgio” (bithû bô becol-‘et ‘am shifkû-lepanayw levavkem ’elohîm mahaseh-lanû). Não há como deixar de perceber que a esperança de Davi no Deus a quem chama “meu refúgio”, é, também, a esperança de todos os servos do Senhor, os quais devem chamá-lo “nosso refúgio”. 

Se antepondo à primeira instrução (“confiai nele”), Davi os informa sobre as fontes nas quais não há segurança, fazendo-o na forma de outra instrução, mas uma instrução sobre o que não fazer (v.10): “Não confiem na exploração, nem na opressão. Não se iludam com a riqueza quando ela aumentar. Não ponham nela o coração” (’al-tivtehû be‘osheq ûbegazel ’al-tehbalû hayil kî-yanûv ’al-tashîtû lev). Visto que essa mensagem é dirigida a todos, tanto plebeus como os de fina estirpe (cf. v.9), Davi mostra que nem a riqueza nem o poder dos ricos podem assegurá-los como o Senhor. A lição é clara e marcante: “Todos” devem confiar no Senhor e pôr “nele” o coração. E, ao fazê-lo, manter o controle das ações, de modo calmo e pacífico, por causa da verdadeira e viva esperança.

terça-feira, outubro 04, 2011

Penetrado pela Palavra de Deus

Por John Piper

“A Palavra de Deus”

A expressão “Palavra de Deus” pode significar uma palavra falada por Deus sem um porta-voz humano. Mas, no Novo Testamento, esta expressão normalmente significa uma palavra ou mensagem que um homem fala como representante de Deus. Por exemplo, Hebreus 13.7 diz: “Lembrai-vos dos vossos guias, os quais vos pregaram a palavra de Deus; e, considerando atentamente o fim da sua vida, imitai a fé que tiveram”. Portanto, a expressão, “Palavra de Deus”, em Hebreus 4.12, provavelmente se refere à verdade de Deus revelada nas Escrituras e que homens falaram uns para os outros na dependência da ajuda de Deus para entendê-la e aplicá-la.

“Viva e eficaz”

A Palavra de Deus não é morta ou ineficaz. Ela tem vida. E, devido a isso, ela produz resultados. Existe algo sobre a Verdade revelada por Deus, que a conecta com Deus como a fonte de toda a vida e poder. Deus ama a sua Palavra. Ele tem predileção por sua Palavra. Ele a honra com sua presença e poder. Se queremos que nosso ensino e testemunho produza efeitos, devemos permanecer fiéis a Palavra revelada de Deus.

“Mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas.”

O que faz esta Palavra viva e eficaz? Ela penetra. Com que propósito? Para dividir. O quê? Alma e espírito. O que isto significa?

O escritor sagrado nos dá uma analogia. É semelhante a dividir juntas e medulas. As juntas são a parte mais grossa, dura e exterior do osso. As medulas são a parte mais mole, macia, viva e interior do osso. Isso é uma analogia de “alma e espírito”. A Palavra de Deus é como uma espada bastante afiada, capaz de cortar diretamente da parte exterior, dura e grossa do osso até à sua parte interior, macia e viva. Algumas espadas, menos afiadas, podem atingir um osso, resvalar e não penetrar. Outras espadas penetram somente até ao meio das juntas grossas e duras de um osso. Mas uma espada pontuda, bem afiada, de dois gumes (afiados em cada lado da ponta), penetrará a junta até alcançar a medula. “Alma e espírito” são como juntas e medulas de ossos. “Alma” é aquela dimensão invisível da vida que somos por natureza. “Espírito” é aquilo que somos pelo novo nascimento sobrenatural. Jesus disse: “O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito” (Jo 3.6). Sem o poder vivificador, criador, regenerador do Espírito de Deus em nós, somos apenas um “homem natural”, e não um “homem espiritual” (1 Co 2.14-15). Por conseguinte, o “espírito” é aquela dimensão invisível de nossa vida que somos por meio da obra regeneradora do Espírito Santo.

Qual é o principal ensino da afirmativa de que a “Palavra de Deus” penetra até ao ponto de “dividir alma e espírito”? O principal ensino desta afirmativa é que a Palavra de Deus revela o nosso verdadeiro “eu”. Somos espirituais ou naturais? Somos nascidos de Deus e estamos espiritualmente vivos? Ou enganamos a nós mesmos e ainda estamos espiritualmente mortos? “Os pensamentos e propósitos” de nosso coração são espirituais ou apenas naturais? Somente a “Palavra de Deus” pode “discernir os pensamentos e propósitos do coração”, como afirma Hebreus 4.12.

Falando em termos práticos, quando lemos ou ouvimos a Palavra de Deus, sentimos que ela penetra em nós mesmos. O efeito deste penetrar é revelar se há espírito ou não. Existe medula e vida em nossos ossos? Ou somos apenas um esqueleto sem medula viva? Existe “espírito” ou somente “alma”? A Palavra de Deus penetra fundo o suficiente, para mostrar-nos a verdade de nossos pensamentos e motivos, e o nosso próprio “eu”.

Renda-se a esta Palavra de Deus, a Bíblia. Use-a para conhecer a si mesmo e confirmar sua própria vida espiritual. Se existe vida, haverá amor, gozo e um coração obediente à Palavra. Dedique-se a esta Palavra, de modo que suas palavras se tornem a Palavra de Deus para outros e revelem a condição espiritual em que eles estão. Então, sobre a ferida causada pela Palavra, derrame o bálsamo da Palavra.

Extraído do livro: Penetrado pela Palavra, de John Piper.
Copyright: © Editora FIEL 2009

domingo, setembro 11, 2011

terça-feira, junho 01, 2010

Um Breve Estudo Sobre o Significado de "Amar o Próximo Como..." (Mc 12.30-31)

Amar o próximo como...
por Reinaldo Bui 

Recentemente participei de uma aula de escola dominical numa determinada igreja, cuja aula era guiada por uma revista que, segundo o título, nos propõe uma nova vida em Cristo. Muito me preocupou o que estava sendo ensinado àquela igreja - e sei lá quantas mais, aos crentes desejosos de uma nova vida, quando foi lido, por exemplo, o seguinte texto na referida revista:

Amarás, pois, ao Senhor teu Deus... Amarás ao próximo como a ti mesmo... (Mc 12.30-31). Na EBD foi dito que Jesus estava ressaltando uma verdade incontestável: não basta amar a Deus e ao próximo, é preciso amar a si mesmo. Esta prática do amor tríplice ajuda você a ter menos problemas físicos e emocionais, como comprova a ciência. O princípio supremo dado por Jesus é para o nosso bem estar. Este ensino me levou a algumas perguntas:
  • Será que aumentar nossa auto estima refletirá num aumento substancial de preocupação ao bem estar alheio?
  • Quanto mais eu me amar mais amarei o próximo?
  • Amor próprio é um mandamento?
  • Será que assim Deus não estaria nos incentivando a intensificar atenção e gastos com nossa própria pessoa antes de pensar no próximo?
  • Será que naturalmente já não fazemos isto?
Esta expressão amar o próximo como a ti mesmo aparece 8 vezes na Bíblia, e foi citada pela primeira vez em Levítico 19.18. Neste contexto, Deus estava dando uma série de instruções para Seu povo no que diz respeito ao relacionamento e tratamento para com o próximo (cf. Lv 19.9-18). Deus não estava sugerindo, em hipótese alguma, que seu povo desenvolvesse um mecanismo de “auto amabilidade” para poder amar o próximo de uma maneira melhor. Não! Deus sabe que somos egoístas por natureza. A ideia expressa aqui pelo Senhor é melhor interpretada como “Ame o próximo como você se ama.”

Não há nenhum texto bíblico que mande ou sugere que nós nos amemos. Isto já é inerente à nossa natureza. Amar-se a si mesmo é próprio da natureza humana. Note o que Paulo escreveu aos Efésios (5.28-29).

Assim também os maridos devem amar a sua mulher como ao próprio corpo. Quem ama a esposa a si mesmo se ama. Porque ninguém jamais odiou a própria carne;
antes, a alimenta e dela cuida...

Maridos devem amar suas esposas como se amam, assim como devemos amar o próximo como nos amamos, cuidamos de nós, visto que sabemos o que é melhor para o nosso eu.

Vemos este mesmo princípio na chamada “regra áurea”: tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles; porque esta é a Lei e os Profetas (Mateus 7:12).


Repetições no NT
Neste mesmo espírito, Jesus citou Levítico 19.18 em 2 ocasiões:

Uma delas aconteceu quando um jovem rico o abordou querendo saber o que poderia fazer (esforço próprio) para ganhar a vida eterna (Mt 19.16-22). Entre as “observações” que Jesus considerou, constava “ame o próximo como a ti mesmo”. Vemos no desfecho desta história que, embora o jovem afirmasse que cumpria isto, ele de fato não amava o próximo como se amava.

A segunda, foi quando um intérprete da Lei questionou Jesus sobre qual era o maior mandamento. Respondeu Jesus: O principal é: Ouve, ó Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor! Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força. O segundo é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes (Mc 12.28-31).

Lucas Também cita Levítico 19.18 numa situação semelhante a esta, porém Jesus fez com que o escriba respondesse sua própria pergunta (Lucas 10.27). É neste contexto que Jesus ensina a seus ouvintes quem é o nosso próximo, contando-lhes a parábola do samaritano – um personagem extremamente degradante aos olhos de um judeu daquela época. Ame o próximo como este samaritano fez e ame o próximo como você se ama, mesmo que seja um samaritano... você consegue?

Além dos sinóticos, Paulo (2 vezes) e Tiago (uma vez) citam este mandamento enfatizando-o como sendo um resumo (essência) da Lei.


Referencial: “EU”
Ao mesmo tempo que o referencial deste mandamento da Lei para amar o próximo baseia-se no quanto nós nos amamos, ele também constitui um problema, pois é verdade que ânimos variam de pessoa para pessoa (assim como pode variar em uma única pessoa). Vejamos aqui os dois extremos de “amor próprio”:

Como devo amar o próximo se tenho...
  • Baixa auto estima
  • Auto estima elevada
Um é infeliz porque não é exatamente quem gostaria de ser ou não tem tudo aquilo que desejaria ter. Isto gera complexos e frustrações. Pessoas assim vivem amarguradas, tem raiva de Deus e da vida. Apresentam problemas de baixa estima, depressão, auto comiseração, etc.

No entanto, o problema desta pessoa não é falta de amor próprio, ela simplesmente acha injusto que os outros sejam mais felizes e realizados do que ela. Insisto que não é falta de amor próprio, mas sim falta de compreender o amor de Deus somado a uma superproteção do seu “ego”. De qualquer forma, esta pessoa sente muita dificuldade de amar o próximo (como a si mesma) porque ela necessita de toda atenção para si. Ela é extremamente carente, só se deixa demover por meio de lisonjas e elogios, e jamais reconhece qualidades nos outros.

No outro extremo, temos aquela pessoa que se ama tanto que é apática com tudo e com todos que de alguma forma não lhe favoreça. Supervaloriza-se tanto que não consegue olhar para as necessidades alheias. É indiferente com Deus, porque não se atenta à Sua Palavra. Normalmente vê Deus como alguém que está aí para servir seus desejos e garantir-lhe vitória em tudo o que fizer. Sua auto estima é super elevada e acredita que é assim porque merece. Sente-se linda e poderosa e não percebe o quanto é pecadora.

Responda sinceramente:
  • Uma pessoa que se ama tanto assim consegue amar o próximo de uma forma melhor?
  • E a pessoa do primeiro caso? Note que ambas são egocêntricas.
Portanto, quando Jesus citou “amarás o próximo como a ti mesmo” não estava ensinando amor próprio nesta passagem. Não estava ensinando a verdade incontestável que devemos primeiro nos amar para poder amar os outros.

Em 2 Timóteo 3.2 temos a única aparição da palavra egoísta (do grego philautos) na Bíblia, que significa aquele que ama a si mesmo; bem atento aos próprios interesses. Aliás, é bastante oportuno verificarmos algumas das definições que o dicionário Houais traz desta mesma palavra:
1-amor exagerado aos próprios valores e interesses a despeito dos de outrem;
2-exclusivismo que leva uma pessoa a se tomar como referência a tudo; excessiva vaidade, pretensão, orgulho, presunção;
3-atitude ética ou social que parte do princípio de que o móvel fundamental de todo pensamento ou ação (morais) é a defesa dos próprios interesses;
4-interesse que o ego tem por si próprio.

Sejamos sinceros: somos egoístas ou não?
Releia estas definições com a “guarda abaixada”, em tom de confissão.

Medite nas seguintes questões:
  • Quanto tempo e recursos você investe para cuidar de si mesmo e de seus interesses? Você gasta o mesmo em prol de outrem? Está disposto a gastar?
  • Se você ganhasse um prêmio substancial em dinheiro, gastaria com o que e para quem? Repartiria com alguém necessitado que não fosse seu familiar?
  • Temos algum valor? Esta pergunta eu respondo: sim! Tanto que Deus enviou seu único filho ao mundo para nos resgatar. Pagou um altíssimo preço. Morreu em nosso lugar, para que nós tivéssemos vida e vida em abundância. Deus nos ama e nos adotou como filhos, nos fazendo co-herdeiros com Jesus.
Não estamos defendendo que a pessoa não deva cuidar de si: de sua saúde física, emocional, intelectual e, principalmente, espiritual. Mas não podemos puxar para nós honra ou valor maior do que Deus nos outorgou. Se somos o que nos tornamos é porque Ele nos transformou. Sem Deus, não passamos de miseráveis pecadores!

Veja o que o salmista escreve em Salmos 8.3-5:

Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem, que dele te lembres e o filho do homem, que o visites? Fizeste-o, no entanto, por um pouco, menor do que Deus e de glória e de honra o coroaste.

Primeiro, o salmista reconhece nossa insignificância e pequenez diante da grandeza do universo (obra dos dedos de Deus), e em seguida admira-se com o cuidado de Deus por seres tão pequenos como nós. Se buscarmos nossa própria glória, deixamos de honrar o nosso criador exaltando o nosso ego; mas quando reconhecemos e aceitamos a posição que o Senhor nos colocou, então glorificamos o Seu Nome.

Agape ou philautos?
Ao invés de incentivar o amor próprio, Jesus convida aqueles que querem segui-lo (cristãos) a negarem-se a si mesmo, tomarem sua cruz e segui-lo.

Aqui o amor próprio começa entrar em conflito com o amor agape. Se agape é um amor incondicional não pode estar se referindo a mim mesmo, mas ao próximo. Precisamos entender que agape é altruísta, enquanto que philautos é egoísta. Se amor próprio não pode ser agape, então é um amor “egocentrado.”

Em 1 Coríntios 13, o apóstolo Paulo escreve, inspirado pelo Espírito Santo, a melhor definição de amor (agape) que conhecemos. Analise esta passagem cuidadosamente:

O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal;
não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acaba...

Certamente este hino não descreve, e nem nele cabe o amor próprio (philautos). Somente o amor ao próximo (agape).

Novo mandamento
Em João 13, no contexto da última ceia, Jesus muda radicalmente o referencial de amor ao próximo quando diz a seus discípulos: Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros (João 13.34-35).

O referencial da antiga aliança de amor ao próximo, assim como todo cumprimento da Lei, dependia do que eu poderia produzir; dependia de meus próprios esforços. Nesta nova aliança anunciada e inaugurada pelo Senhor Jesus, o referencial não se baseia mais em nossa frágil e egoísta natureza humana, mas no Seu amor.

1 João 4:19 nos ensina que nós amamos porque ele nos amou primeiro, e não porque me amo. Devemos amar como Ele nos amou: Servindo, perdoando, incondicionalmente.

A velha Lei dizia: Ame o próximo do jeito que você se ama. E agora? O que a graça, diz? Amar ao próximo: como você se ama ou como Cristo nos amou? Qual deve ser o nosso referencial? Insistir no amor próprio é negar que Cristo é o nosso referencial.

Mas se amar o próximo como nós nos amamos já é difícil, e quanto amar como Cristo nos amou? Novamente, se depender de nós, é impossível. Por isso Deus nos deu o Seu Espírito. Conforme permitimos, veremos o fruto deste Espírito crescendo em nós, abrochando amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio.

Não preciso recorrer para a ciência para saber que pessoas que amam a Deus e ao próximo tem menos problemas físicos e emocionais. Antes da ciência comprovar, a Bíblia já afirmava isto com autoridade e quer que esta seja uma realidade em sua vida!
E quanto ao amor próprio? Bem, sabemos que a pessoa que é amada se sente valorizada. Daí cabe a seguinte pergunto: Você crê que Jesus te ama? Então espalhe este amor pelo mundo. Ame ao próximo como Ele te ama. (Para uma compreensão melhor deste assunto, leia a Primeira Epístola do Apóstolo João.)

domingo, março 07, 2010

Era ou não Samuel? (1Sm 28.7-25)

Uma frequente discussão entre evangélicos é se era ou não Samuel quem estivera presente no episódio de Saul e a médium de En-Dor. Abaixo o texto bíblico (NVI) e então, um trecho da apostila de Teologia Bíblica do Antigo Testamento (TBAT), por Carlos Osvaldo, que eu creio ter escrito muito bem sobre este tema. O negrito no texto é meu.

7 Então Saul disse aos seus auxiliares: "Procurem uma mulher que invoca espíritos, para que eu a consulte". Eles disseram: "Existe uma em En-Dor".8 Saul então se disfarçou, vestindo outras roupas, e foi à noite, com dois homens, até a casa da mulher. Ele disse a ela: "Invoque um espírito para mim, fazendo subir aquele cujo nome eu disser".9 A mulher, porém, lhe disse: "Certamente você sabe o que Saul fez. Ele eliminou os médiuns e os que consultam os espíritos da terra de Israel. Por que você está preparando uma armadilha contra mim, que me levará à morte?"10 Saul jurou-lhe pelo SENHOR: "Juro pelo nome do SENHOR que você não será punida por isso". 11 "Quem devo fazer subir?", perguntou a mulher. Ele respondeu: "Samuel". 12 Quando a mulher viu Samuel, gritou e disse a Saul: "Por que me enganaste? Tu mesmo és Saul!" 13 O rei lhe disse: "Não tenha medo. O que você está vendo?" A mulher respondeu: "Vejo um ser que sobe do chão".14 Ele perguntou: "Qual a aparência dele?" E disse ela: "Um ancião vestindo um manto está subindo". Então Saul ficou sabendo que era Samuel, inclinou-se e prostrou-se, rosto em terra. 15 Samuel perguntou a Saul: "Por que você me perturbou, fazendo-me subir?" Respondeu Saul: "Estou muito angustiado. Os filisteus estão me atacando e Deus se afastou de mim. Ele já não responde nem por profetas nem por sonhos; por isso te chamei para me dizeres o que fazer". 16 Disse Samuel: "Por que você me chamou, já que o SENHOR se afastou de você e se tornou seu inimigo? 17 O SENHOR fez o que predisse por meu intermédio: rasgou de suas mãos o reino e o deu a seu próximo, a Davi. 18 Porque você não obedeceu ao SENHOR nem executou a grande ira dele contra os amalequitas, ele lhe faz isso hoje. 19 O SENHOR entregará você e o povo de Israel nas mãos dos filisteus, e amanhã você e seus filhos estarão comigo. O SENHOR também entregará o exército de Israel nas mãos dos filisteus". 20 Na mesma hora Saul caiu estendido no chão, aterrorizado pelas palavras de Samuel. Suas forças se esgotaram, pois ele tinha passado todo aquele dia e toda aquela noite sem comer. 21 Quando a mulher se aproximou de Saul e viu que ele estava profundamente perturbado, disse: "Olha, tua serva te obedeceu. Arrisquei minha vida e fiz o que me ordenaste. 22 Agora, por favor, ouve tua serva e come um pouco para que tenhas forças para seguir teu caminho".23 Ele recusou e disse: "Não vou comer". Seus homens, porém, insistiram com ele, e a mulher também; e ele os atendeu. Ele se levantou do chão e sentou-se na cama. 24 A mulher matou depressa um bezerro gordo que tinha em casa; apanhou um pouco de farinha, amassou-a e assou pão sem fermento. 25 Então ela serviu a Saul e a seus homens, e eles comeram. E naquela mesma noite eles partiram.

Este famoso incidente é uma fonte de perplexidade para os evangélicos e uma falsa mina de ouro para os chamados espiritualistas. Estes, buscam aqui apoio para o mediunismo, entendendo que a médium foi capaz de trazer Samuel dos mortos. A reação da médium (v.12), todavia, revela o terror de que foi possuída quando percebeu que a aparição não era aquela à qual estava acostumada, fosse essa um ambuste ou uma manifestação demoníaca. Além disso, o conteúdo dessa entrevista fere frontalmente o perfil psicológico das sessões espiritas, onde o tom é sempre de conforto, de reafirmação e otimismo.

Já os evangélicos insistem em que não poderia ser Samuel pois sua aparição violaria o mandamento de não consultar os mortos (Lv 20.27; Dt 18.10-12). Argumentam ainda, que o relato de 1 Samuel 28.7-25 é resultado do testemunho ocular dos servos de Saul, que eram supersticiosos e indignos de confiança. (1Sm 21.7; 26.6). O relato, portanto, seria incorreto. Argumentam ainda, à luz da história do rico e Lázaro (Lc 16.20-31), que Samuel não poderia ter voltado, porque Jesus declarou que tal volta é impossível. Um último argumento é que a profecia e a cronologia descritas na entrevista de En-Dor não se cumpriram, pois o Espírito anunciara a morte de Saul e de todos os seus filhos no dia seguinte. Esta última não teria se cumprido porque há um intervalo de pelo menos três dias entre o encontro com a médium e a morte de Saul. Além disso, alegam alguns estudiosos evangélicos, os filhos de Saul não morreram todos no combate.

Uma outra abordagem me parece mais convincente. Em primeiro lugar, manter a integridade da narrativa ao invés de rebaixar este capítulo a uma espécie de sub-inspiração. Quando opiniões ou relatos errôneos são inseridos na narrativa bíblica os autores cuidam para que haja alguma indicação de que tal ocorreu (cf. a mulher de Tecoa em 2Sm 14). Em segundo lugar, reconhecendo que há claras proibições divinas quanto à necromancia, e que a norma é a impossibilidade de retorno dos espíritos dos mortos, percebemos também que Deus, em Sua soberana vontade, suspende temporariamente algumas de Suas leis, desde que isso não fira Seu caráter santo. Assim é que, apesar de estar "ordenado aos homens morrer uma única vez, e depois disso o juizo" (Hb 9.27), o filho da sunamita, a filha de Jairo e Lázaro de Betânia (entre outros) foram ressuscitados em seus corpos naturais e morreram pela segunda vez! Isso se aplica também ao fato de Deus ter permitido que Samuel aparecesse para cumprir Seus soberanos propósitos nas vidas de Saul e Davi.

Em terceiro lugar, algumas "pistas" do autor de Samuel, que foi guiado pelo Espírito Santo (2Pe 1.20-21), sugerem que Deus usou sua narrativa para deixar clara aos leitores a completa rejeição de Saul. A menção ao manto (em hebraico me'il) nos remete ao incidente da rejeição (cf. 15.27-28), que foi anunciado de modo absoluto e inescapável em 28.17. As palavras e os objetos aqui mencionados espelham o incidente do manto rasgado, em que Samuel anuncia que o reino seria arrancado das mão de Saul. A mensagem é clara: Saul já passou do ponto de retorno, não há mais esperança. Ninguém, nem os vivos nem os mortos, poderá ajudá-lo a escapar do juízo de Deus. Esta mensagem por si só já elimina a acusação falsa de que defender a aparição de Samuel é declarar que o espiritismo é aceitável. Algumas vezes Deus permite o erro para ensinar mais dramaticamente as suas terríveis consequências.

Em quarto lugar, a acusação de imprecisão histórica revela pouca sensibilidade ao estilo de narrativa de 1 e 2 Samuel, que alterna Saul e Davi para fazer contrastes entre o rei rejeitado e o rei aprovado. Nesta divisão, por exemplo, Saul não obtem qualquer resposta de Deus (pois havia expulso o sumo sacerdote e rejeitado os profetas), ao passo que Davi tem comunicação frequente e positiva com o Senhor (30.7-8). Assim, dizer que Samuel errou a predição pois Saul não teria morrido senão três dias depois da famosa entrevista é ignorar o uso frequente de contraste, não de cronologia, como o princípio dominante da narrativa. Os três dias são referentes a Davi, e dizem respeito ao que aconteceu entre os filisteus enquanto Saul preparava seu exército próximo aomonte Giboa. En-Dor ficava a uma distância pequena da cena de batalha, e Saul teria facilmente voltado às suas linhas a tempo para a batalha fatídica. De passagem, ele teve de atravessar as linhas inimigas, o que mostra que, apesar de desesperado, não era covarde nem estava mentalmente incapacitado. Quanto aos filhos de Saul, Samuel não afirmou que TODOS morreriam, incorrendo assim um erro. Somente quem já pressupõe falsidade da narrativa é que vê a afirmação do profeta abrangendo todos os filho de Saul. Um conhecimento mais preciso de história ajudaria a entender que os monarcas não levavam todos os filhos à batalha, evitando assim a extinção da dinastia.

Por fim, o suposto argumento teológico de Samuel não teria dito a Saul que este se acharia no mesmo lugar que ele, dada a condição espiritual de cada um, revela insensibilidade ao progresso da revelação. Mesmo adimitindo que Samuel já estivesse no seio de Abraão (i.e., em comunhão com Abraão [e Deus]), a narativa histórica foi feita de acordo com a revelação concedida por Deus naquela época, que apesar de correta, era incompleta. Saul estaria com Samuel na mesma esfera de existência, que o Antigo Testamento descreve como SHEOL. Estabelecer uma definição teológica absoluta nesta passagem é impor a teologia do Novo Testamento, em lugar de deixar esta último falar por si. Tal colocação revela outra pressuposição tradicional entre evangélicos: a de que Saul não podria ir para o "céu," por ter cometido suicídio, questão que permanece aberta a discussão.

À luz destas observações, é possível concluir que Samuel de fato apareceu, soberanamente enviado por Deus para revelar Sua inflexível determinação de julgar Saul por sua rebeldia. A passagem de maneira nenhuma ensina que tal prática é aceitável perante Deus ou que possa repetir-se hoje. Ensina, isto sim, que a obediência a Deus não é uma questão de conveniência humana; quem escolhe adiar a obediência,na esperança de um tempo mais apropriado ou de circunstâncias mais convenientes, poderá se arrepender amarga e eternamente de tal escolha.


Fonte:
PINTO, Carlos Osvaldo. Telogia Bíblica do Antigo Testamento I. Apostila preparada para os alunos do Seminário Bíblico Palavra da Vida (SBPV), 2006.

quarta-feira, setembro 02, 2009

O Garoto da Groselha (2Tm 2.15)

A história abaixo é verdadeira.

Tenho um amigo, que enquanto solteiro, gostava muito de groselha. Comi algumas vezes em sua casa e sempre havia groselha. Muitos de nós, especialmente durante a adolescência, fixamo-nos em uma bebida ou comida que desejamos, durante um tempo, que esteja sobre a mesa, à nossa frente todas as refeições. A groselha era seu caso. Aliás, não era qualquer groselha, era "a groselha," de uma marca específica.

Em uma das vezes que fui comer em sua casa, com seus pais e irmã presentes na mesa, presenciei o que poucos seriam capazes de fazer: perceber que a composição da groselha havia mudado, mesmo sem qualquer aviso do fabricante.

Depois dele tomar o primeiro gole de sua gelada groselha, ele disse: "a groselha está diferente." Eu conhecia aquela marca e de fato, achava ela a mais gostosa, mas não sentia diferença em seu sabor. Logicamente, todos da mesa provaram da groselha para saber se de fato a groselha continuava ou não com o mesmo sabor.

Ninguém percebeu mudança no gosto da groselha, mas ele insistiu, dizendo que a groselha não estava tão gostosa como antes, pois algo tinha mudado. Assim que o almoço terminou e todos deixaram a mesa, ele ligou para o Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC) daquele produto. Eles disseram que haviam mudado alguns componentes na fórmula, mas ainda não tinham divulgado isso para o consumidor tão claramente.

Meu amigo ficou contente por estar certo, provando seu conhecimento pelo produto, mas por outro lado triste, porque a nova fórmula não era tão gostosa como outrora.

Toda essa história era para ilustrar uma passagem da carta de 2Timóteo, onde Paulo diz: Procure apresentar-se a Deus aprovado, como obreiro que não tem do que se envergonhar e que maneja corretamente a palavra da verdade (2.15 NVI - grifo meu). Meu amigo conhecia muito bem a groselha que ele tomava. Os cristãos precisam, semelhantemente, conhecer bem a Palavra de Deus, a Bíblia, chamada neste versículo de Palavra da Verdade.

Você é capaz de perceber detalhes que fazem toda a diferença sobre quem é Deus? Sobre Seu plano para o homem? Sobre a Salvação? Sobre Israel e a igreja? Todos os cristãos precisam, como o garoto da groselha, perceber minúcias através da seriedade no estudo das Escrituras Sagradas e que envolvem nosso desenvolvimento como filhos de Deus, mesmo quando outras pessoas não conseguem e afirmam que não há diferença. Todos precisamos ser bons manejadores da Palavra da Verdade, bons provadores de groselha.

sexta-feira, julho 24, 2009

Comentário de Gênesis 37, 39 e 40

Este comentário está sendo atualizado (agosto/2011).

Iniciei o mês de julho com um grande desafio, ensinar sobre a vida de José, filho de Jacó e Raquel, para uma classe aos domingos na igreja onde ainda congrego (IBCU).

Este próximo domingo é o quarto do mês e meu último para falar sobre José. Infelizmente (ou não), não passarei do capítulo 40 de Gênesis. Sem dúvida me atrapalhei todo com meu cronograma, mas não me arrependo disso, pois tivemos discussões muito válidas. Claro que espero ter a chance de terminar o curso, possivelmente em dezembro.

Gostaria de deixar à disposição o comentário dos três capítulos de Gênesis que eu consegui cobrir durante este tempo, Gn 37, 39 e 40. Para isso, clique na figura abaixo.


Espero que de alguma forma este breve comentário destes três capítulos possa lhe ajudar em sua devocional ou mesmo em seu estudo bíblico. Espero, até o final do ano, poder acabar meus comentários dos capítulos que envolvem a vida de José, um homem íntegro e indulgente, segundo o título do livro sobre José, de Charles Swindoll.

Este comentário também pode ser encontrado em Bible.org

terça-feira, julho 14, 2009

Disco de Newton - "Uma Só Carne"

Disco de Newton - Uma Só Cor
Casamento - Uma Só Carne

Newton explicou que a luz que consideramos branca é, na verdade, uma luz composta de várias cores. Em primeiro lugar, decompôs a luz solar. Por volta de 1666, mediante um prisma triangular de cristal atravessado por um feixe luminoso, obteve o que hoje chamamos de espectro, devido ao diferente índice de refração ou desvio de cada uma das cores que compõem a luz branca.
A divisão de um raio de luz em seus componentes devido á sua diferente refração, denomina-se dispersão da luz.

Falta então recompor a luz branca através da soma das cores. Isto se consegue por um aparelho que é chamado disco de Newton. Este disco que é pintado com as mesmas cores que compõem o espectro de luz branca, adquire quando girado velozmente e recebendo uma iluminação intensa, uma cor uniformemente branca. À medida que aumenta a velocidade do disco, as cores vão-se somando, o matiz geral aparece acinzentado e, finalmente, só se observa um círculo uniforme esbranquiçado - (Clique aqui para ver a origem do texto acima).



Acredito que o disco de Newton seja uma boa ilustração para entendermos o final da passagem de Gn 2.24, e eles se tornarão uma só carne (NVI). Quando aceleramos o disco multicolorido, enchergamos somente uma cor, branca. O homem e a mulher, depois de deixar pai e mãe e se unirem, se tornam uma só carne. Tanto a cor branca no disco acelerado, como o casal casado, na verdade, são compostos por algo que vai além da quantidade um. O disco é formado por várias cores. A única carne é formada por um homem e uma mulher que se comprometeram um ao outro perante Deus e a criação. Esta é a única matemática onde 1 + 1 = 1.

De fato, a união conjugal na visão de Deus, prepondera sobre os laços sanguíneos de pai e filho, ou mesmo irmãos. A união de um homem e uma mulher é a única passível de se tornar uma só carne. Sim, há algo inexplicável nesta união. Não é por menos que Deus odeia tanto o divórico (Ml 2.16) e ama tanto a família.

A união entre um homem e uma mulher é semelhante a união entre as pessoas que formam nosso Triúno Deus. Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou (Gn 1.27). A união humana da forma que Deus desde o princípio desejou, reflete nosso próprio Deus, propósito dEle. Desde o início Ele queria que nós, Suas criaturas, espalhássemo-nos pela terra administrando-a e zelando por ela, refletindo sempre Sua vontade. Tal trabalho deveria ser feito em união das partes, homem e mulher, o primeiro criado e a auxiliadora idônea, uma só carne, uma só cor.

A união conjugal como criada pelo Criador está em crise. O disco multicolorido não tem sido girado. Pessoas se juntam e separam quando bem entendem. Sexo, criação de Deus para ser usufruído no casamento tornou-se arma de fogo na mão de crianças. Ninguém (i.e., poucas) mais quer ver a beleza da cor branca, que traz a beleza de todas as cores que o homem é capaz de enxergar. Ninguém está disposto a viver a beleza da vontade de Deus, um homem e uma mulher, tornando-se uma só carne, "tornando-se uma só cor".

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Formação Espiritual (Hb 4.12-16)

Durante esta semana estive em um dos meus módulos do Mestrado no Seminário Bíblico Palavra da Vida. Ao final da semana utilizamos o texto de Hebreus 4.12-16 para basear nossos argumentos à formação espiritual.

12 Pois a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais afiada que qualquer espada de dois gumes; ela penetra até o ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e julga os pensamentos e intenções do coração.
13 Nada, em toda a criação, está oculto aos olhos de Deus. Tudo está descoberto e exposto diante dos olhos daquele a quem havemos de prestar contas.
14 Portanto, visto que temos um grande sumo sacerdote que adentrou os céus, Jesus, o Filho de Deus, apeguemo-nos com toda a firmeza à fé que profess
amos,
15 pois não temos um sumo sacerdote que
não possa compadecer-se das nossas fraquezas, mas sim alguém que, como nós, passou por todo tipo de tentação, porém, sem pecado.
16 Assim, aproximemo-nos do trono da graça com toda a confiança, a fim de recebermos misericórdia e encontrarmos graça que nos ajude no momento da necessidade.

Hebreus 4.12-16 (NVI)

O Alvo da Vida Cristã
Aproximar-nos do Trono da Graça com Fé (v.16)
Objetivo: recebermos misericórdia e encontrarmos graça nos momentos de necessidade.

Como?
- devemos nos apegar à fé que dizemos ter (cf. Hb 10.23; 1Pe 3.15b);
- Cristo deve ser o exemplo mor de alguém que passou por todo tipo de tentação, porém sem pecar. Ademais, Ele está ao lado de nosso alvo, o trono de Deus, a plena graça em Pessoa (Hb 12.2).

O Processo de Crescimento Espiritual
Através do exemplo de Cristo, devemos persistir na firmeza de professarmos nossa fé (v.14)
Objetivo: lembrar-nos sempre de que haverá dificuldade, mas nEle há resolução.

Como?
- a Palavra de Deus julga pensamentos e intenções, indica e avalia as condições de nosso coração: ela expõe o que se passa na intimidade do homem;
- o conhecimento da onisciência de Deus deve mantê-lo afastado de tropeçar, visto que Deus disciplina aqueles que ele aceita como filho.

A Dinâmica Humana e Divina na Formação Espiritual
A verdadeira ajuda somente vem de Deus (v.14)
Objetivo: entender as iniciativas e projetos divinos para os problemas humanos.

O que é esta dinâmica?
Deus, como Criador da própria história, deu ao homem a capacidade de refletir e seguir pelo caminho de sua escolha. Desde a queda de Sua criatura, Deus intervém de forma contínua no desenrolar da história tomando iniciativas para que a livre vontade do homem não afogue seu próprio futuro.

- Jesus Cristo já entrou nos céus (v.14): isso nos mostra que o próprio Pai já tomou a iniciativa de enviar Seu filho para curar a alma do homem. O fato de Jesus estar agora no céu, não significa que Ele está inerte. Pelo contrário, ele intercede por nós (Rm 8.34; 1Jo 2.1) e nos prepara um lugar (Jo 14);
- Prestar contas a Deus: Jesus é nosso advogado e por isso não precisaremos rever o filme de nossa vida diante do Pai. Entretanto, saber que Jesus intercederá por todos os genuínos cristãos naquele Dia, deveria manter todos eles com uma certa vergonha de pecar contra Deus, por causa da graça de Jesus (temor a Deus - Pv 1.7);
- Jesus é simpático por nós, ou seja, Ele se compadece, participa no sofrimento de outrem, comunga sentimentos. Ele sabe exatamente como nos sentimos e intercede por nós (como dito acima).

Obstáculos à Formação Espiritual
As sugestões abaixo são para evitarmos os obstáculos.

Apresentar-se
Apresentar-se a Deus (v.13 - prestar contas)
- Sugere que quedas serão inevitáveis durante nossa caminhada ao trono da graça, mas a consciência da presença do Senhor deve nos manter longe do pecado.

Apegar-se

Apegar-se com toda firmeza à fé que professamos (v.14)
- Firmeza: sugere dificuldades de nível elevado. Este é um alerta para nos deixar preparados;
- A frase também sugere passividade à hipocrisia, caso aquilo que professamos não seja de fato a fé que nos apegamos.

Aproximar-se
Aproximar-se do trono da graça (v.16)
- Somos passíveis de estar longe do trono da graça;
- Devemos cotidianamente caminhar em direção ao trono dEle.

Não é suficiente ver o coração sem correr até a cruz.
- David Merkh

quinta-feira, dezembro 13, 2007

Reconvocados à Comunhão (Ap 3.20)

Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei e cearei com ele, e ele comigo - Apocalipse 3.20 (NVI)

Já ouvi diversas vezes a passagem supra sendo utilizada no evangelismo. Existem diversos folhetos evangelísticos que a utilizam. No entanto este não é o uso correto da passagem segundo uma hermenêutica literal. Serei objetivo:

1- O contexto indica que Laodicéia era a igreja destinatária. Isso sugere que os leitores são cristãos;

2- Quem bate na porta é Jesus Cristo, a segunda Pessoa da Trindade. Não é Jesus que habita nos cristãos, mas o Espírito Santo, a terceira Pessoa da Trindade.

3- Jesus quer entrar por aquela porta para cear com os indivíduos da igreja, ou seja, restabelecer a comunhão (koinonia)
que outrara tivera com eles.

4- O contexto diz que Deus repreende e disciplina aqueles que Ele ama
(v.19). À luz de Hebreus 12.6 sabemos que aqueles que Deus disciplina são os que Ele tem como filho.

É meu desejo entender holisticamente a Palavra de Deus, apesar de minhas limitações. Contudo, que todas as dificuldades sejam superadas por Ele em mim. Que este também seja o genuíno desejo de Cristãos que têm as Escrituras como alicerce da abundante vida.

quinta-feira, maio 24, 2007

Salmo 119 - uma frase por letra

O Salmo 119 é sem dúvida uma dos poemas mais bem elaborados de toda história, sem comentar o seu conteúdo. Feito de forma acróstica, resolvi tentar resumir a mentalidade do salmista a cada oito versículos, que no original, começam com uma letra do alfabeto hebraico. Os desenhos são de Judy Racz.



Alef

Como são felizes os que andam em caminhos irrepreensíveis, que vivem conforme a lei do SENHOR! Como são felizes os que obedecem aos seus estatutos e de todo o coração o buscam! Não praticam o mal e andam nos caminhos do SENHOR. Tu mesmo ordenaste os teus preceitos para que sejam fielmente obedecidos. Quem dera fossem firmados os meus caminhos na obediência aos teus decretos. Então não ficaria decepcionado ao considerar todos os teus mandamentos. Eu te louvarei de coração sincero quando aprender as tuas justas ordenanças. Obedecerei aos teus decretos; nunca me abandones.

O salmista almeja aprender a lei do Senhor e obedecê-la fielmente com gratidão, pois sabe que quem a pratica é feliz, pois foi Ele próprio quem a decretou.




Beit
Como pode o jovem manter pura a sua conduta? Vivendo de acordo com a tua palavra. Eu te busco de todo o coração; não permitas que eu me desvie dos teus mandamentos. Guardei no coração a tua palavra para não pecar contra ti. Bendito sejas, SENHOR! Ensina-me os teus decretos. Com os lábios repito todas as leis que promulgaste. Regozijo-me em seguir os teus testemunhos como o que se regozija com grandes riquezas. Meditarei nos teus preceitos e darei atenção às tuas veredas. Tenho prazer nos teus decretos; não me esqueço da tua palavra.

A possibilidade de pecar contra Javé é real e por isso é necessário atentar-se à Lei do Senhor e mantê-las sempre com regozijo.



Gimel
Trata com bondade o teu servo para que eu viva e obedeça à tua palavra. Abre os meus olhos para que eu veja as maravilhas da tua lei. Sou peregrino na terra; não escondas de mim os teus mandamentos. A minha alma consome-se de perene desejo das tuas ordenanças. Tu repreendes os arrogantes; malditos os que se desviam dos teus mandamentos! Tira de mim a afronta e o desprezo, pois obedeço aos teus estatutos. Mesmo que os poderosos se reúnam para conspirar contra mim, ainda assim o teu servo meditará nos teus decretos. Sim, os teus testemunhos são o meu prazer; eles são os meus conselheiros.

O conhecimento das estipulações de Deus traz à luz a consciência de uma vida passageira e maldita sem Ele, e o temor, o desejo de continuamente viver meditando em Sua Palavra mesmo quando o mundo isso despreza.



Dalet
Agora estou prostrado no pó; preserva a minha vida conforme a tua promessa. A ti relatei os meus caminhos e tu me respondeste; ensina-me os teus decretos. Faze-me discernir o propósito dos teus preceitos; então meditarei nas tuas maravilhas. A minha alma se consome de tristeza; fortalece-me conforme a tua promessa. Desvia-me dos caminhos enganosos; por tua graça, ensina-me a tua lei. Escolhi o caminho da fidelidade; decidi seguir as tuas ordenanças. Apego-me aos teus testemunhos, ó SENHOR; não permitas que eu fique decepcionado. Corro pelo caminho que os teus mandamentos apontam, pois me deste maior entendimento.

O salmista, humilhado, atravessa o matagal segurando as mãos do Senhor, pois deposita sua vida nAquele que lhe dá entendimento.




Hei
Ensina-me, SENHOR, o caminho dos teus decretos, e a eles obedecerei até o fim. Dá-me entendimento, para que eu guarde a tua lei e a ela obedeça de todo o coração. Dirige-me pelo caminho dos teus mandamentos, pois nele encontro satisfação. Inclina o meu coração para os teus estatutos, e não para a ganância. Desvia os meus olhos das coisas inúteis; faze-me viver nos caminhos que traçaste. Cumpre a tua promessa para com o teu servo, para que sejas temido. Livra-me da afronta que me apavora, pois as tuas ordenanças são boas. Como anseio pelos teus preceitos! Preserva a minha vida por tua justiça!

O anseio genuíno do salmista é conhecer a lei do Senhor para que ele não venha desfrutar dos desejos que não refletem à imagem de Deus.





Vav
Que o teu amor alcance-me, SENHOR, e a tua salvação, segundo a tua promessa; então responderei aos que me afrontam, pois confio na tua palavra. Jamais tires da minha boca a palavra da verdade, pois nas tuas ordenanças coloquei a minha esperança. Obedecerei constantemente à tua lei, para todo o sempre. Andarei em verdadeira liberdade, pois tenho buscado os teus preceitos. Falarei dos teus testemunhos diante de reis, sem ficar envergonhado. Tenho prazer nos teus mandamentos; eu os amo. A ti levanto minhas mãos e medito nos teus decretos.

O testemunho do salmista é a reprodução de sua vida fundamentada no gozo em andar nos caminhos do Senhor sem evergonhar-se.





Zain
Lembra-te da tua palavra ao teu servo, pela qual me deste esperança. Este é o meu consolo no meu sofrimento: A tua promessa dá-me vida. Os arrogantes zombam de mim o tempo todo, mas eu não me desvio da tua lei. Lembro-me, SENHOR, das tuas ordenanças do passado e nelas acho consolo. Fui tomado de ira tremenda por causa dos ímpios que rejeitaram a tua lei. Os teus decretos são o tema da minha canção em minha peregrinação. De noite lembro-me do teu nome, SENHOR! Vou obedecer à tua lei. Esta tem sido a minha prática: Obedecer aos teus preceitos.

A palavra que traz vida é obedecida pelo salmista que teme pelo peso da mão do Senhor reconhecido na história e que independentemente da forma que outros tratam a Deus, sua vida é louvá-lO.




Chet
Tu és a minha herança, SENHOR; prometi obedecer às tuas palavras. De todo o coração suplico a tua graça; tem misericórdia de mim, conforme a tua promessa. Refleti em meus caminhos e voltei os meus passos para os teus testemunhos. Eu me apressarei e não hesitarei em obedecer aos teus mandamentos. Embora as cordas dos ímpios queiram prender-me, eu não me esqueço da tua lei. À meia-noite me levanto para dar-te graças pelas tuas justas ordenanças. Sou amigo de todos os que te temem e obedecem aos teus preceitos. A terra está cheia do teu amor, SENHOR; ensina-me os teus decretos.

O arrependimento leva o salmista a agradecer seu retorno ao Senhor e Sua prazerosa Palavra, embora haja iniquidade no lugar que Deus tanto amou.




Tet
Trata com bondade o teu servo, SENHOR, conforme a tua promessa. Ensina-me o bom senso e o conhecimento, pois confio em teus mandamentos. Antes de ser castigado, eu andava desviado, mas agora obedeço à tua palavra. Tu és bom, e o que fazes é bom; ensina-me os teus decretos. Os arrogantes mancharam o meu nome com mentiras, mas eu obedeço aos teus preceitos de todo o coração. O coração deles é insensível, eu, porém, tenho prazer na tua lei. Foi bom para mim ter sido castigado, para que aprendesse os teus decretos. Para mim vale mais a lei que decretaste do que milhares de peças de prata e ouro.

O reconhecimento de um Deus bom e justo vem à luz através da divina disciplina que leva à aproximação da preciosa revelação moral de Javé e o desejo ardente de conhecê-lO mais.




Yod
As tuas mãos me fizeram e me formaram; dá-me entendimento para aprender os teus mandamentos. Quando os que têm temor de ti me virem, se alegrarão, pois na tua palavra coloquei a minha esperança. Sei, SENHOR, que as tuas ordenanças são justas, e que por tua fidelidade me castigaste. Seja o teu amor o meu consolo, conforme a tua promessa ao teu servo. Alcance-me a tua misericórdia para que eu tenha vida, porque a tua lei é o meu prazer. Sejam humilhados os arrogantes, pois prejudicaram-me sem motivo; mas eu meditarei nos teus preceitos. Venham apoiar-me aqueles que te temem, aqueles que entendem os teus estatutos. Seja o meu coração íntegro para com os teus decretos, para que eu não seja humilhado.

O homem como criatura de Deus deve refletir Sua imagem e por isso o desejo do salmista em ser íntegro para comEle e Sua Lei, visto que a disciplina amorosa de Javé é real.





Kaf
Estou quase desfalecido, aguardando a tua salvação, mas na tua palavra coloquei a minha esperança. Os meus olhos fraquejam de tanto esperar pela tua promessa, e pergunto: Quando me consolarás? Embora eu seja como uma vasilha inútil, não me esqueço dos teus decretos. Até quando o teu servo deverá esperar para que castigues os meus perseguidores? Cavaram uma armadilha contra mim os arrogantes, os que não seguem a tua lei. Todos os teus mandamentos merecem confiança; ajuda-me, pois sou perseguido com mentiras. Quase acabaram com a minha vida na terra, mas não abandonei os teus preceitos. Preserva a minha vida pelo teu amor, e obedecerei aos estatutos que decretaste.

Diante da aparente distância de Javé e de tanta perseguição e a aparente distância de Deus aos eminentes problemas do salmista, sua esperança que Deus seguirá fiel às Suas palavras não desfalece, mesmo sabendo ele sobre sua condição humana.




Lamed
A tua palavra, SENHOR, para sempre está firmada nos céus. A tua fidelidade é constante por todas as gerações; estabeleceste a terra, que firme subsiste. Conforme as tuas ordens, tudo permanece até hoje, pois tudo está a teu serviço. Se a tua lei não fosse o meu prazer, o sofrimento já me teria destruído. Jamais me esquecerei dos teus preceitos, pois é por meio deles que preservas a minha vida. Salva-me, pois a ti pertenço e busco os teus preceitos Os ímpios estão à espera para destruir-me, mas eu considero os teus testemunhos. Tenho constatado que toda perfeição tem limite; mas não há limite para o teu mandamento.

Diante da imutável perfeição de Deus e se Sua palavra, somente resta ao salmista confessar a soberania de Javé e esperar nEle.




Mem
Como eu amo a tua lei! Medito nela o dia inteiro. Os teus mandamentos me tornam mais sábio que os meus inimigos, porquanto estão sempre comigo. Tenho mais discernimento que todos os meus mestres, pois medito nos teus testemunhos. Tenho mais entendimento que os anciãos, pois obedeço aos teus preceitos. Afasto os pés de todo caminho mau para obedecer à tua palavra. Não me afasto das tuas ordenanças, pois tu mesmo me ensinas. Como são doces para o meu paladar as tuas palavras! Mais que o mel para a minha boca! Ganho entendimento por meio dos teus preceitos; por isso odeio todo caminho de falsidade.

O amor a lei é demonstrado através da devota vida do salmista em meditar nas palavras do Senhor e afastar-se do mau, enquanto é provada através da sabedoria e discernimento obtido na Sua palavra.





Nun
A tua palavra é lâmpada que ilumina os meus passos e luz que clareia o meu caminho. Prometi sob juramento e o cumprirei: vou obedecer às tuas justas ordenanças. Passei por muito sofrimento; preserva, SENHOR, a minha vida, conforme a tua promessa. Aceita, SENHOR, a oferta de louvor dos meus lábios, e ensina-me as tuas ordenanças. A minha vida está sempre em perigo, mas não me esqueço da tua lei. Os ímpios prepararam uma armadilha contra mim, mas não me desviei dos teus preceitos. Os teus testemunhos são a minha herança permanente; são a alegria do meu coração. Dispus o meu coração para cumprir os teus decretos até o fim.

Haja o que houver, a palavra do Senhor é e será guia para os passos para o obediente salmista, que deseja a constante alegria nos testemunhos de Javé.





Sameq
Odeio os que são inconstantes, mas amo a tua lei. Tu és o meu abrigo e o meu escudo; e na tua palavra coloquei minha esperança. Afastem-se de mim os que praticam o mal! Quero obedecer aos mandamentos do meu Deus! Sustenta-me, segundo a tua promessa, e eu viverei; não permitas que se frustrem as minhas esperanças. Ampara-me, e estarei seguro; sempre estarei atento aos teus decretos. Tu rejeitas todos os que se desviam dos teus decretos, pois os seus planos enganosos são inúteis. Tu destróis como refugo todos os ímpios da terra; por isso amo os teus testemunhos. O meu corpo estremece diante de ti; as tuas ordenanças enchem-me de temor.

A segurança e temor de Deus é proveniente do entendimento da soberania divina e Sua lei, que faz o salmista desejar ficar longe dos que praticam o mal e odiar a hipocrisia.





Ayin
Tenho vivido com justiça e retidão; não me abandones nas mãos dos meus opressores. Garante o bem-estar do teu servo; não permitas que os arrogantes me oprimam. Os meus olhos fraquejam, aguardando a tua salvação e o cumprimento da tua justiça. Trata o teu servo conforme o teu amor leal e ensina-me os teus decretos. Sou teu servo; dá-me discernimento para compreender os teus testemunhos. Já é tempo de agires, SENHOR, pois a tua lei está sendo desrespeitada. Eu amo os teus mandamentos mais do que o ouro, mais do que o ouro puro. Por isso considero justos os teus preceitos e odeio todo caminho de falsidade.

O servo salmista fala de seu amor e desejo pela palavra de Deus que é desrespeitada por outros e roga que Ele aja em favor da justiça.






Pei
Os teus testemunhos são maravilhosos; por isso lhes obedeço. A explicação das tuas palavras ilumina e dá discernimento aos inexperientes. Abro a boca e suspiro, ansiando por teus mandamentos. Volta-te para mim e tem misericórdia de mim, como sempre fazes aos que amam o teu nome. Dirige os meus passos, conforme a tua palavra; não permitas que nenhum pecado me domine. Resgata-me da opressão dos homens, para que eu obedeça aos teus preceitos. Faze o teu rosto resplandecer sobre o teu servo, e ensina-me os teus decretos. Rios de lágrimas correm dos meus olhos, porque a tua lei não é obedecida.

Existe reconhecimento, quando há obediência, de que os testemunhos do Senhor são maravilhosos e levam os inexperientes a discernir o caminho que afasta do pecado e apesar da insubmissão geral de Sua palavra, o salmista ainda anseia por ela para refletir a gloria que somente Ele tem.





Tzadik
Justo és, SENHOR, e retas são as tuas ordenanças. Ordenaste os teus testemunhos com justiça; dignos são de inteira confiança! O meu zelo me consome, pois os meus adversários se esquecem das tuas palavras. A tua promessa foi plenamente comprovada, e, por isso, o teu servo a ama. Sou pequeno e desprezado, mas não esqueço os teus preceitos. A tua justiça é eterna, e a tua lei é a verdade. Tribulação e angústia me atingiram, mas os teus mandamentos são o meu prazer. Os teus testemunhos são eternamente justos, dá-me discernimento para que eu tenha vida.

A (verdadeira) vida depende do discernimento da eterna e justa verdade, toda digna de confiança, palavra de Deus, mesmo quando as circunstâncias empíricas aparentam o contrário.





Quf
Eu clamo de todo o coração; responde-me, SENHOR, e obedecerei aos teus testemunhos! Clamo a ti; salva-me, e obedecerei aos teus estatutos! Antes do amanhecer me levanto e suplico o teu socorro; na tua palavra coloquei minha esperança. Fico acordado nas vigílias da noite, para meditar nas tuas promessas. Ouve a minha voz pelo teu amor leal; faze-me viver, SENHOR, conforme as tuas ordenanças. Os meus perseguidores aproximam-se com más intenções; mas estão distantes da tua lei. Tu, porém, SENHOR, estás perto e todos os teus mandamentos são verdadeiros. Há muito aprendi dos teus testemunhos que tu os estabeleceste para sempre.

O salmista, através da meditação de Seus testemunhos, compreende a imanência e iminência do Senhor em poder socorrê-lo de seus alienados perseguidores.




Reish
Olha para o meu sofrimento e livra-me, pois não me esqueço da tua lei. Defende a minha causa e resgata-me; preserva a minha vida conforme a tua promessa. A salvação está longe dos ímpios, pois eles não buscam os teus decretos. Grande é a tua compaixão, SENHOR; preserva a minha vida conforme as tuas leis. Muitos são os meus adversários e os meus perseguidores, mas eu não me desvio dos teus estatutos. Com grande desgosto vejo os infiéis, que não obedecem à tua palavra. Vê como amo os teus preceitos! Dá-me vida, SENHOR, conforme o teu amor leal. A verdade é a essência da tua palavra, e todas as tuas justas ordenanças são eternas.

Em meio ao sofrimento, o salmista recorda da grande compaixão de Deus e espera pela salvação segundo Sua promessa, que encontra-se distante dos que não buscam Seus justos decretos.







Shin / Sin
Os poderosos perseguem-me sem motivo, mas é diante da tua palavra que o meu coração treme. Eu me regozijo na tua promessa como alguém que encontra grandes despojos. Odeio e detesto a falsidade, mas amo a tua lei. Sete vezes por dia eu te louvo por causa das tuas justas ordenanças. Os que amam a tua lei desfrutam paz, e nada há que os faça tropeçar. Aguardo a tua salvação, SENHOR, e pratico os teus mandamentos. Obedeço aos teus testemunhos; amo-os infinitamente!

Enquanto o salmista espera pela redenção divina em meio às adversidades, ele obedece e louva ao Senhor pelo sincero amor e temor ao Seus testemunhos.





Tav
Obedeço a todos os teus preceitos e testemunhos, pois conheces todos os meus caminhos. Chegue à tua presença o meu clamor, SENHOR! Dá-me entendimento conforme a tua palavra. Chegue a ti a minha súplica. Livra-me, conforme a tua promessa. Meus lábios transbordarão de louvor, pois me ensinas os teus decretos. A minha língua cantará a tua palavra, pois todos os teus mandamentos são justos. Com tua mão vem ajudar-me, pois escolhi os teus preceitos. Anseio pela tua salvação, SENHOR, e a tua lei é o meu prazer. Permite-me viver para que eu te louve; e que as tuas ordenanças me sustentem. Andei vagando como ovelha perdida; vem em busca do teu servo, pois não me esqueci dos teus mandamentos.

A ovelha do Senhor encontra-se cientemente perdida e suplica ao onisciente Deus para livrá-la de suas aflições e assim proporcionar-lhe uma vida passível de adorar a Javé com sua voz e vida.

Salmo 119


Diante de perseguições e tribulações, a escolha do salmista é louvar, meditar e obedecer a palavra do justo Senhor.