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sábado, janeiro 08, 2011

Exegese e escatologia em Marcos 13.14-23 (Parte 2)

Por Tiago Abdala

13. ... (15) quem estiver em cima, no eirado, não desça nem entre para tirar da sua casa alguma coisa; (16) e o que estiver no campo não volte atrás para buscar a sua capa. (17) Ai das que estiverem grávidas e das que amamentarem naqueles dias! (18) Orai para que isso não suceda no inverno. (19) Porque aqueles dias serão de tamanha tribulação como nunca houve desde o princípio do mundo, que Deus criou, até agora e nunca jamais haverá. (20) Não tivesse o Senhor abreviado aqueles dias, e ninguém se salvaria; mas, por causa dos eleitos que ele escolheu, abreviou tais dias.

A segunda parte do texto bíblico, em análise, desta série (1o. Artigo) nos informa que a grande tribulação virá de forma tão iminente e brusca que “pegará” muitos de surpresa, a ponto de que os que estiverem em cima de suas casas, talvez dormindo ou realizando alguma atividade (os telhados eram planos e muito do dia-a-dia ocorria ali), precisarão fugir, deixando tudo para trás, sem levar nada consigo (v. 15). Da mesma forma, os que estiverem trabalhando no campo precisarão fugir, sem sequer levar consigo sua capa, para se aquecerem durante a noite fria nas montanhas (v. 16). Grávidas e mulheres que amamentarem encontrarão maior dificuldade pela urgência da fuga e a necessidade de correrem com seus bebês (v. 17). O inverno na Palestina é uma estação de muita chuva, em que os rios transbordam e os caminhos, enlameados, tornam-se quase intransitáveis (v. 18). Este será um momento de tribulação intensa, sem igual em época alguma (v. 19; cf. hai hemerai ekeinai thlipsis com v. 24), mas já prevista por Jeremias e Daniel, como um momento que antecederia a salvação de Israel e o fim dos tempos (Jr 30.7ss; Dn 12.1ss).

Digno de nota é que ambas as profecias do AT são um prenúncio de tribulação intensa, especialmente, sobre a nação de Israel. A profecia do Senhor Jesus parece se apoiar nesta perspectiva, pois, faz referência especificamente aos moradores da Judéia (v. 15), cujo clima no inverno dificultaria, em muito, a fuga (v. 18), e fala de uma tribulação enorme que antecederá um momento de poderosa salvação para os seus eleitos (vv. 19, 24-27).

Outro paralelo textual, que não pode ser deixado de lado, é a descrição encontrada no livro de Apocalipse, capítulo 12, em que uma mulher que representa a nação de Israel (Ap 12.1 com Gn 37.9-11; Ap 12.5 com Rm 9.1-5) foge de uma perseguição promovida pelo próprio Satanás (vv. 6, 13-14), quando pouco tempo lhe restava, antes de ser vencido (Ap 12.12; cf. 19.19 – 20.3).

Nada disso foge da providência divina, que cuida e se preocupa com seus eleitos (v. 20), uma expressão tanto para Israel (1 Cr 16.13; Sl 105.43; Is 65.9, 15) quanto para gentios salvos e participantes da Nova Aliança (1 Pe 1.1; 2 Tm 2.10; Cl 3.12). Foi Deus quem determinou a brevidade deste período, a fim de salvar Seu povo de tal tribulação. A soberania divina, todavia, não anula a responsabilidade destes eleitos de orarem e clamarem pela misericórdia de Deus num período de tamanha provação (v. 18).

Adolf Pohl questiona o fato de que, se Marcos 13.14-23 trata sobre a grande tribulação, por que o texto não apresenta esta tribulação alcançando o mundo inteiro? (POHL, p. 372). Mas ele ignora um detalhe do verso 20, que diz que, caso tais dias não fossem abreviados, “toda a carne não se salvaria” (ouk esothe pasa sarx), sendo que “toda carne” (pasa sarx) é uma expressão bíblica para indicar a humanidade em sua totalidade (cf. Lc 3.6; Gl 2.16; 1 Pe 1.24). 

sexta-feira, janeiro 07, 2011

Exegese e escatologia em Marcos 13.14-23 (Parte 1)

Por Tiago Abdala

Em textos passados, no Fundamentalismo e Reforma, observei que os acontecimentos descritos pelo Senhor Jesus em Marcos 13.1-13 se relacionavam não com eventos necessariamente ligados ao término dos tempos, mas à destruição do templo, em 70 A.D., e ao todo do período da igreja, precedente à grande tribulação e à vinda de Cristo. A partir do verso 14, o Senhor Jesus parece descrever eventos ligados aos finais dos tempos. Primeiramente, porque o texto fala sobre uma tribulação tamanha, tal qual não houve antes e nunca haveria igual (v. 19). Além disso, o verso 24 nos dá uma chave para interpretar os acontecimentos, pois, naqueles dias, após aquela tribulação, a vinda do Senhor Jesus ocorreria (en ekeinais tais hemerais metá ten thlipsin ekeinen - vv. 24-26). Assim, interpretar os acontecimentos como apenas ligados aos acontecimentos da guerra dos judeus e a eventual queda de Jerusalém, entre 66-70 A.D., é desconsiderar os dados do próprio texto.

Um dos acontecimentos ligados à grande tribulação final é o aparecimento do abominável da desolação, uma expressão originada no profeta Daniel (Dn 9.27; 11.31; 12.11cf. Mt 24.15) e que se relaciona ao término dos sacrifícios no templo e a profanação deste. Há uma relação desta expressão de Daniel com o que ocorreu na época dos Macabeus, em 167 a.C. (1 Mc 1.54-59; 6.7), quando um representante de Antíoco Epifânio ergueu um altar pagão sobre o altar de bronze do templo e sacrificou uma porca ali, em homenagem ao deus Zeus (cf. Dn 11). Mas, sabemos que esta profecia não se limita apenas a este acontecimento, já que Jesus fez referência a ela como algo a ocorrer no futuro.

Há uma disputa acirrada entre os comentaristas quanto ao momento do cumprimento desta profecia de Jesus. Vários dizem ter tal anúncio se cumprido durante a revolta judaica, entre 66-70. Alguns dizem que o “abominável da desolação” é a invasão do exército romano em Jerusalém e a destruição por eles do templo, no ano 70 A.D (ver HURTADO, NICB, p. 215-217). Outros dizem que isso ocorreu quando os zelotes instituíram Fani, um homem primitivo, como sumo-sacerdote e o fizeram entrar no santo dos santos (ver POHL, p. 372-373).

O grande problema com estas interpretações é que elas não levam em conta, o suficiente, as indicações, dos versos 19 e 24, de que estes acontecimentos se relacionavam com o fim dos tempos e que a expressão “mas” (), em 13.14, aponta para um contraste entre os acontecimentos de 4-13 e os de 14-23.

Daniel, também, relaciona o aparecimento do “abominável da desolação” com o final dos tempos, quando o povo de Deus será purificado por Ele e, então, liberto (Dn 12.1-3, 9-12). Além disso, o apóstolo Paulo menciona uma cena muito semelhante, quando o Anticristo se assentará no “santuário de Deus” e reivindicará para si a própria divindade, mas será destruído pela vinda do Senhor Jesus (2 Ts 2.3-4, 7-10). Este último texto se assemelha muito com a cena de Marcos 13, que fala do “abominável da desolação” se colocando “no lugar em que não deve” (v. 14) e, logo após a tribulação de tais dias, o Senhor Jesus vindo para salvar seu povo (vv. 24-26).

O sinal claro, então, dos fins dos tempos não é, necessariamente, guerras ou terremotos, ou fomes ou falsos profetas. Mas, sim, a revelação do Anticristo e sua profanação do templo de Deus, em Jerusalém. Qualquer alarde desvinculado disso é jogar tempo fora e perder de perspectiva a nossa missão (vv. 9-11).

sexta-feira, abril 30, 2010

O que é Dispensacionalismo?

Professor: Luiz José de Almeida Gusmão. M. Teo
Fundador do Centro de Estudos e Pesquisas Bíblicas - CHAMADA BEREANA

Fonte: Leia Jornal


I - UMA DEFINIÇÃO
Está é uma boa pergunta para se começar! O que é o dispensacionalismo?  O Dr. Charles Ryrie, professor jubilado do Seminário Teológico de Dallas, é um notável porta voz do dispensacionalismo. Muitos conhecem o Dr. Ryrie através dos seus livros e artigos, porém ele é mais conhecido pela famosa Bíblia Anotada. O livro escrito por Ryrie, “Dispensationalism Today” (O Dispensacionalismo na Atualidade), ainda sem tradução em português, é um ponto de referência para a busca da definição de dispensacionalismo. Farei um resumo do seu conteúdo. O Dr. Ryrie assinala que The Oxford English Dictionary define uma dispensação teológica como: “um estágio na revelação progressiva, expressamente adaptado às necessidades de uma determinada nação ou de um período de tempo... também, a era ou período durante o qual um sistema predominou[1]”. O termo “dispensação”, em português, é uma tradução do substantivo grego oikonomia, muitas vezes traduzido pelo vocábulo “administração” em versões mais atuais da Bíblia. O verbo oikonomeo[2] se refere ao gerente administrativo de uma casa de família. Ryrie faz esta observação: “No Novo Testamento, o termo dispensação significa gerenciar ou administrar os negócios de uma casa de família, como, por exemplo, na história contada por Jesus sobre o administrador infiel registrada em Lucas 16.1-13.[3]

O Uso do Termo Dispensação nas Escrituras
A palavra grega oikonomia é uma aglutinação do termo oikos, que significa “casa”, com o termo nomos, que significa “lei”. Quando reunidos, “a idéia central do vocábulo dispensação é a de gerenciar ou administrar os afazeres de uma casa”.[4]

As várias formas da palavra dispensação ocorrem vinte vezes no Novo Testamento. O verbo oikonomeo é utilizado uma vez em Lucas 16.2 onde é traduzido por “ser um administrador”. O substantivo oikonomos é usado dez vezes (Lc 12.42; Lc 16.1,3,8; Rm 16.23; 1Co 4.1,2; Gl 4.2; Tt 1.7; 1 Pe 4.10), e em todos esses casos é traduzido por termos que evidenciam uma relação de economia doméstica, tais como: “mordomo, administrador, despenseiro, curador”, exceto no caso de Romanos 16.23, onde é traduzido por “tesoureiro”. O substantivo oikonomia ocorre nove vezes (Lc 16.2,3,4; 1 Co 9.17; Ef 1.10, Ef 3.2,9; Cl 1.25; 1 Tm 1.4). Nessas ocorrências é traduzido de várias maneiras (administração, responsabilidade de despenseiro, dispensação, serviço).

quarta-feira, novembro 25, 2009

O Cristão Deve Obedecer à Lei? (Lei X Graça)

Baseado no capítulo "The Relationship of the Christian to the Law and Grace", do livro There Really is a Difference, de Renald E. Showers.

A Questão

Deve o homem obedecer às leis mosaicas? Alguns cristão declaram que os salvos devem obediência aos aspectos morais da Lei, mas não precisam se preocupar em obedecer os aspectos civis e cerimoniais. É necessário entender que o aspecto moral da Lei apresenta o caráter de Deus, que é eterno, imutável. Se uma pessoa não estiver debaixo da vontade moral de Deus, ele não está de acordo com Seu caráter.

Por outro lado, alguns cristão dizem que os salvos não estão sujeitos a nenhum aspecto da Lei mosaica, mesmo seu aspecto moral. Para melhor compreensão da visão deste grupo, é necessário saber que apesar da Lei mosaica ter, de fato, três facetas [civil, cerimonial e moral], ela funcionava como uma unidade indivisível. Dessa forma, se submeter a um aspecto da Lei, obrigava o crente no poder de Deus a estar debaixo de toda ela. Em outras palavras, sujeitar-se ao aspecto moral, colocava o homem sujeito aos aspectos cerimoniais e civil também.

Como dito, a vontade moral presente na Lei demonstra o caráter de Deus, que é imutável. Todavia, o que foi apresentado na Lei através de Moisés, foi uma forma de Deus administrar sua vontade absoluta a um grupo específico, a nação de Israel. Até Cristo, a Lei mosaica trazia orientação às pessoas sujeitas a aliança. Para estar submisso à vontade (absoluta) de Deus, não é necessário obedecer às leis dadas por Moisés.

A moralidade de Deus é a mesma desde sempre, antes de existir qualquer coisa. A Lei conforme a conhecemos na Bíblia não fazia parte da vida de vários homens, pois a vontade de Deus não havia sido registrada em letras. Ainda assim, Abel foi reconhecido como justo (Hb 11.4); Enoque tinha agradado a Deus (v.5); Noé tornou-se herdeiro da justiça (v.7); Abraão obedeceu quando chamado (v.11). Deve ser claramente notado que homens viveram a vontade de Deus mesmo antes da Lei, apesar de uma forma  administrativamente diferente. Perceba que é possível para uma pessoa viver livre do aspecto moral da Lei mosaica sem estar fora da vontade de Deus (da Lei).

Assim, também, Deus decidiu administrar Sua moral absoluta e eterna de forma diferente depois da cruz. Uma forma superior, chamada graça! Atente-se: "liberdade do aspecto moral da Lei mosaica não envolve liberdade da moral absoluta de Deus, envolve liberdade de uma forma de Deus administrar Sua moral" (-- R. Showers).


A Indivisibilidade da Lei Mosaica

Veja as passagens e os breves comentários abaixo:
  • Gálatas 3:10 - Já os que se apóiam na prática da Lei estão debaixo de maldição, pois está escrito: "Maldito todo aquele que não persiste em praticar todas as coisas escritas no livro da Lei." Querer manter parte da Lei obriga o homem a mantê-la totalmente.
  • Gálatas 5:3 - De novo declaro a todo homem que se deixa circuncidar, que está obrigado a cumprir toda a Lei. Circuncisão fazia parte do aspecto cerimonial da Lei. Escolher uma parte da Lei, obriga o homem a mantê-la toda.
  • Tiago2.10 - Pois quem obedece a toda a Lei, mas tropeça em apenas um ponto, torna-se culpado de quebrá-la inteiramente. O autor não se refere somente a um aspecto da Lei. Qualquer ponto dela que fosse quebrado, tornava o homem culpado.

    Evidências de que os Cristãos Não Estão Sujeitos à Lei Mosaica

    • Romanos 7.4 - Assim, meus irmãos, vocês também morreram para a Lei, por meio do corpo de Cristo, para pertencerem a outro, àquele que ressuscitou dos mortos, a fim de que venhamos a dar fruto para Deus. O homem está livre da Lei.
    • Romanos 7.6 - Mas agora fomos libertos da lei, havendo morrido para aquilo em que estávamos retidos, para servirmos em novidade de espírito, e não na velhice da letra. "A palavra libertos significa: retirado da esfera de operação" (R. Showers). O cristão foi liberto da esfera de operação da Lei.
    • Gálatas 2.19 - Pois, por meio da Lei eu morri para a Lei, a fim de viver para Deus. O cristão deve viver separado da Lei mosaica.
    •  Gálatas 3.19 - Qual era então o propósito da Lei? Foi acrescentada por causa das transgressões, até que viesse o Descendente a quem se referia a promessa, e foi promulgada por meio de anjos, pela mão de um mediador. A Lei foi criada para um certo tempo e propósito. A continuação da passagem demonstra o ensino de Paulo de que a Lei tinha um objetivo pedagógico (vv.20-25).
    • Gálatas 5.18 - Mas, se vocês são guiados pelo Espírito, não estão debaixo da Lei. Os que são controlados pelo Espírito Santo não estão debaixo da Lei. Em Rm 8.14, Paulo diz que os filhos de Deus são guiados pelo Espírito de Deus.
    • Gálatas 5.22 - Mas o fruto do Espírito é... Uma lista de obras produzidas pelo Espírito Santo, que não são provenientes da obediência à Lei mosaica.
    • Efésios 2.13-16 - Mas agora, em Cristo Jesus, vocês, que antes estavam longe, foram aproximados mediante o sangue de Cristo. Pois ele é a nossa paz, o qual de ambos fez um e destruiu a barreira, o muro de inimizade, anulando em seu corpo a Lei dos mandamentos expressa em ordenanças. O objetivo dele era criar em si mesmo, dos dois, um novo homem, fazendo a paz, e reconciliar com Deus os dois em um corpo, por meio da cruz, pela qual ele destruiu a inimizade. Anulando (v.15) no texto significa, tornar indolente, desempregado, inativo (Strong's). Depois da morte de Jesus, Deus inaugurou uma nova forma de administrar Sua imutável vontade.
    • Hebreus 7.12 - Certo é que, quando há mudança de sacerdócio, é necessário que haja mudança de lei. Segundo F.F. Bruce, a palavra mudança significa anulação. Quando Jesus anulou o sacerdócio de Arão pelo de Melquisedeque, a Lei mosaica, que fundamentava o sacerdócio de Arão foi anulado.
    Breves e Certas Conclusões
    1. A Lei mosaica é uma unidade indivisível, apesar de possui aspectos diferentes.
    2. O cristão não está sujeito à Lei mosaica.