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quarta-feira, abril 03, 2013

A renovação da águia ou a inovação sobre a águia?

Por T. Zambelli

Não sei exatamente quanto tempo isso faz, mas sei onde eu estava e porque eu lá estava. Era um curso de andragogia, na IBCU, há mais ou menos 10 anos. Foi lá que eu vi pela primeira vez uma apresentação sobre a renovação da águia. Abaixo o vídeo, que é mais interessante que os slides.


Qual sua opinião sobre este vídeo?
( ) Excelente!
( ) Muito bom
( ) Regular
( ) Péssimo!
( ) Outro

Se eu lhe dissesse para justificar sua escolha acima, qual seria sua resposta? Tome alguns segundos para pensar, por favor.

Tenho perguntado isso a algumas pessoas e unanimemente tenho escutado que este é um excelente vídeo. Aliás, note quantas vezes este vídeo já foi visto. Tente somar com aqueles em outras línguas. O número é imenso!

Eu já soube de alguns que escutaram sermões com a apresentação acima, tendo como texto base o Salmo 103.1-5, que diz:

1 Bendiga ao Senhor a minha alma! Bendiga ao Senhor todo o meu ser!
 2 Bendiga ao Senhor a minha alma! Não esqueça de nenhuma de suas bênçãos!
 3 É ele que perdoa todos os seus pecados e cura todas as suas doenças,
 4 que resgata a sua vida da sepultura e o coroa de bondade e compaixão,
 5 que enche de bens a sua existência, de modo que a sua juventude se renova como a águia.
(Grifo meu - NVI)

Sobre esta apresentação, escreveu um amigo ornitólogo, doutor (UNICAMP): "A história é toda uma fraude, do início ao fim, lamento." Não há nenhuma troca de bico, tampouco de penas. Não existe nenhum período para renovação da águia. Este mesmo amigo estava presente na mesma aula de andragogia que eu estava. Ele alertou o descuidado professor.

De fato, fui incentivado a escrever este post depois que recebi esta apresentação da águia mais uma vez. (Não me pergunte quantas vezes eu já recebi esta história!) Respondi à pessoa que me enviou que os dados eram uma farsa. A pessoa respondeu: "mesmo que não seja verdade,  Deus usou esta apresentação para me lembrar do cuidado dEle por mim." Esta resposta me deixou tanto contente quanto triste. Contente porque algumas vezes acertamos a bola no cesto mesmo não sabendo a dinâmica eficaz do arremesso, ou mesmo a regra do jogo. É muito gostoso acertar um arremesso, especialmente os difíceis. Triste, porque era minha expectativa que o arremessador reconhecesse que seu certeiro arremesso foi na cesta errada, a que ele defendia. De fato, logo que eu recebi esta resposta, respondi: "Eu somente quis lhe dizer isso porque eu não queria que você divulgasse algo que não é verdade, mesmo que os princípios na história afetem a ti e a outros positivamente." Obviamente que nós podemos fazer isso usando a verdade!

Foto divulgada como se o fóssil fosse o gigante de Gn 6.4
Eu tenho muito cuidado ao repassar alguma notícia ou informação adiante. Sou usuário do Facebook e é frequente eu ver descuidados irmãos passando adiante imagens enganosas, como a do suposto fóssil do gigante de Gênesis 6.4. Já me enviaram uma foto que tinha a descrição de um massacre contra cristãos no oriente médio, sendo que, na verdade, a verdadeira história não tinha relaçãoa alguma com o fato daquelas pessoas serem ou não cristãs. Há poucas semanas eu recebi um email que dizia "Pr. Yousef Nadarkhani foi morto." No dia seguinte recebi outro email, de outra pessoa: "Pr. Yousef Nadarkhani está vivo, oremos por ele!"

Não é meu intuito neste post explicar o texto do Salmo 103.5, mas incentivar o leitor a buscar e divulgar a verdade. Deixe-me ir um pouco além e perguntar: e quando nossas fontes estão erradas? Veja que esta história da renovação da águia já foi contada, inclusive, por Agostinho (354 - 430):
By a natural device, therefore, in order in some measure to restore its youth, the eagle is said to dash and strike against a rock the upper lip of its beak, by the too great increase of which the opening for eating is closed: and by thus rubbing it against the rock, it breaketh off the weight of its old beak, which impeded its taking food. It cometh to its food, and everything is restored: it will be after its old age like a young eagle; the vigour of all its limbs returneth, the lustre of its plumage, the guidance of its wings, it flieth aloft as before, a sort of resurrection taketh place in it. For this is the object of the similitude... Fonte: Augustine of Hippo. (1888). Expositions on the Book of Psalms A. C. Coxe, Trans.). In P. Schaff (Ed.), A Select Library of the Nicene and Post-Nicene Fathers of the Christian Church, First Series, Volume VIII: Saint Augustin: Expositions on the Book of Psalms (P. Schaff, Ed.) (506). New York: Christian Literature Company.
Observe que a fonte de Agostinho não era correta: "(sobre) a águia é dito" [the eagle is said]. Quantos estudiosos bíblicos já devem ter lido esta comentário de Agostinho e repassado adiante como se a história da renovação da águia fosse verdadeira?

Enfim, não há homem ou mulher que não corre o risco de passar adiante informações equivocadas, seja qual for a área do conhecimento. Oro a Deus por sabedoria e discernimento. Oro a Deus para apresentar a verdade, com base na verdade, sempre.


domingo, dezembro 02, 2012

Posso ter um presépio em minha igreja?

Por Mark Ellis
Repondendo a uma carta

Prezado Roberto (nome fictício),

Em primeiro lugar, obrigado por confiar em mim para dirigir essa pergunta. Responderei à sua pergunta em dois níveis: o absoluto e o cultural.

Em termos absolutos, não vejo nenhum problema com presépio, seja na igreja ou em casa. Diane e eu usamos alguns para enfeitar nossa casa durante o natal. Mas existem duas objeções contra essa perspectiva.

A primeira é ofenderia o primeiro dos dez mandamentos: Não farás para ti nenhum ídolo, nenhuma imagem de qualquer coisa no céu, na terra, ou nas águas debaixo da terra. Não te prostrarás diante deles nem lhes prestarás culto, porque eu, o SENHOR, o teu Deus, sou Deus zeloso, que castigo os filhos pelos pecados de seus pais até a terceira e quarta geração daqueles que me desprezam, mas trato com bondade até mil gerações aos que me amam e obedecem aos meus mandamentos. (Êxodo 20:4)

Parece, para mim, que temos somente duas opções para interpretar o texto: ou a proibição absoluta de qualquer imagem e escultura, ou a proibição contra imagens e esculturas feitas como objetos de culto. Se aceitarmos a primeira opção em termos absolutos, como proibição de toda a qualquer imagem, isso vai eliminar imagens de todo e qualquer tipo: fotos de netos, bonecas como Barbie, estátuas de animais no jardim, tudo. É assim que os muçulmanos o interpretam.

Eu rejeito a primeira e aceito a segunda por duas razões:

1) O próprio texto deixa muito claro que o propósito de fazer a imagem era prestar culto e cultuar o objeto como um deus. E aplicando isso ao presépio, por tudo que sei, nenhuma pessoa em nenhuma igreja batista iria prestar culto à nenhuma bonequinha encontrada no presépio. Aceitamos como mera
decoração em vista da celebração do nascimento do Salvador.

2) Deus mandou Moisés fazer imagens de várias entidades para serem colocadas no templo: romã, árvores e flores no santo dos santos, bois embaixo da banheira de purificação, e quatro serafins dentro do santo dos santos, dois sobre sobre o propiciatório, e dois lado a lado sobre tudo. O próprio Deus mandou a fabricação de imagens para seu uso dentro do próprio templo de Deus, sem correr nenhum risco de alguém cultuá-las. Então, nego que o primeiro mandamento está proibindo a fabricação de toda e qualquer imagem.

Apesar de qualquer questão sobre a interpretação da Lei de Moisés, existe um princípio teológico mais básico ainda:

Sendo gentios, nunca fomos sujeitos à Lei de Moisés, e sendo cristãos, teríamos sido liberados de qualquer obrigação de guardar a Lei. Para nós gentios que estamos debaixo da graça, que importa é amar Deus mais que qualquer outra coisa.

Mas alguém poderia perguntar, "Mas tendo Jesus menino na manjedoura, não teríamos feito uma imagem de Deus?" Reconheço a lógica, mas nego a conclusão.

Em primeiro lugar, de fato, a própria encarnação era criar uma imagem de Deus em carne e osso para todo mundo ver (Hebreus 1.1-3). Se houvesse maquinas fotográficas nos dias da vida terrestre de Cristo, teria sido permitido bater uma foto de Cristo? Se encontrássemos um desenho de Cristo feito por uma testemunha ocular deveríamos destruí-lo? Eu ACHO que não.

Em segundo lugar, se o problema fosse somente a escultura de Cristo menino, poderíamos fazer um presépio com José, Maria, os pastores, as ovelhas, e o anjo se deixarmos pra fora o bonequinho de Cristo?

Então, em termos absolutos, não vejo nenhum problema com fazer presépio, nem para uso em casa nem na igreja.

Agora, vamos para o outro lado de sensibilidade cultural. Estamos num pais católico romano onde o culto de imagens está endêmico. Estamos de verdade correndo o risco de criar confusão nas mentes dos que foram convertidos da Igreja Católica Romana e uma vida de idolatria e prestação de culto de imagens. Eu entendo que "o escândalo do irmão mais fraco" seria fazer qualquer coisa diante de uma pessoa que foi dominada por aquilo, e vendo nosso comportamento, poderia ser fortalecido para voltar para aquela prática e ser dominada de novo. Mas este princípio tem limites. Conforme Romanos 14:1-12, os que são fortes na fé e capazes de participar numa atividade sem violar seu compromisso com Deus são livres para fazer aquela coisa, e os fracos na fé que não são capazes de fazer sem sentir culpa deveria evitar tais atividades. Mas o fortes deveriam não menosprezar os fracos, e os fracos deveriam NÃO CONDENAR OS FORTES. Os fracos não poderiam usar sua fraqueza para dominar os outros ou impor suas opiniões.

Conheço um professor de teologia que, antes de ser salvo, era viciado por beisebol americano, inclusive apostando nos jogos. Para seu benefício, todos os outros professores teriam de ser proibidos de jogar beisebol pelo resto de suas vidas? Acho que não. Mas pelo amor dele, os outros simplesmente o respeitaram por limitar suas conversas na sua presença, e não o convidavam quando iam assistir os jogos. Houve algo intrinsecamente pecaminoso no ato de assistir um jogo de beisebol? Para mim, não! Mas para não provocar meu irmão voltar para o que era um ídolo para ele, limito minhas liberdades na presença dele.

Mas, existe um outro lado dessa questão: Deus espera que o imaturo amadurece. Quando renovei meu compromisso com Cristo, houve coisas que Deus tirou da minha vida. Uma daquelas coisas foi a mentira, e eu era viciado nisso! O meu medo de voltar para a vida do mentiroso era tão forte, que minha consciência nem deixou-me participar em jogos inocentes que implicaram em enganar os outros jogadores. E por um bom tempo eu julguuei equivocadamente em meu coração os que participaram destes jogos. Hoje não os julgo, mas eu ainda não os jogo. Não me ofende se os outros, inclusive minha esposa e todos os meus filhos jogam. Mas eles sabem para não insistir comigo de jogar com eles. Minha consciência simplesmente não permite.

Baseado neste princípio, aqui no Brasil, eu ia pensar muito e conversar muito com os maduros da igreja antes colocar um presépio na igreja.

Essas são minhas opiniões na questão. Se tiver idéias que poderiam ampliar meu entendimento, seriam aceitas com humildade e prazer.

Tudo de Melhor em Cristo,
Dr. Mark

terça-feira, março 27, 2012

"É possível acreditar em Deus usando a razão", afirma William Lane Craig

Na Revista Veja

William Lane Craig
Quando o escritor britânico Christopher Hitchens, um dos maiores defensores do ateísmo, travou um longo debate nos Estados Unidos, em abril de 2009, com o filósofo e teólogo William Lane Craig sobre a existência de Deus, seus colegas ateus ficaram tensos. Momentos antes de subir ao palco, Hitchens — que morreu em dezembro de 2011. aos 62 anos — falou a jornalistas sobre a expectativa de enfrentar Craig.

"Se você acha que a religião é um conto de fadas, não acredite. Mas se o cristianismo é a verdade — como penso que é — temos que acreditar nele independente das consequências. É o que as pessoas racionais fazem, elas acreditam na verdade. A  via contrária é o pragmatismo. 'Isso Funciona? Não importa se é verdade, quero saber se funciona'" -- William Lane Craig

"Posso dizer que meus colegas ateus o levam bem a sério", disse. "Ele é considerado um adversário muito duro, rigoroso, culto e formidável", continuou. "Normalmente as pessoas não me dizem 'boa sorte' ou 'não nos decepcione' antes de um debate — mas hoje, é o tipo de coisa que estão me dizendo". Difícil saber se houve um vencedor do debate. O certo é que Craig se destaca pela elegância com que apresenta seus argumentos, mesmo quando submetido ao fogo cerrado.

O teólogo evangélico é considerado um dos maiores defensores da doutrina cristã na atualidade. Craig, que vive em Atlanta (EUA) com a esposa, sustenta que a existência de Deus e a ressurreição de Jesus, por exemplo, não são apenas questões de fé, mas passíveis de prova lógica e racional. Em seu currículo de debates estão o famoso químico e autor britânico Peter Atkins e o neurocientista americano Sam Harris (veja lista com vídeos legendados de Craig). Basta uma rápida procura no Youtube para encontrar uma vastidão de debates travados entre Craig e diversos estudiosos. Richard Dawkins, um dos maiores críticos do teísmo, ainda se recusa a discutir com Craig sobre a existência de Deus.

quinta-feira, agosto 18, 2011

O que a Bíblia diz sobre poligamia?

Deus condena a poligamia. Dificilmente um cristão negaria essa afirmação. Mas se isso é verdade, então por que Deus permitiu que Salomão tivesse setecentas mulheres e trezentas concubinas, segundo consta em 1 Reis 11.3?

Norman Geisler e Thomas Howe apresentam uma resposta:

A monogamia é o padrão de Deus para os homens. Isso está claro nos seguintes fatos: (1) Desde o princípio Deus estabeleceu este padrão ao criar o relacionamento monogâmico de um homem com uma mulher, Adão e Eva (Gn 1:27; 2:21-25). (2) Esta ficou sendo a prática geral da raça humana (Gn 4:1), seguindo o exemplo estabelecido por Deus, até que o pecado a interrompeu (Gn 4:23). (3) A Lei de Moisés claramente ordena: “Tampouco para si multiplicará mulheres” (Dt 17:17). (4) A advertência contra a poligamia é repetida na própria passagem que dá o número das muitas mulheres de Salomão (1 Reis 11:2): “Não caseis com elas, nem casem elas convosco”. (5) Jesus reafirmou a intenção original de Deus ao citar esta passagem (Mt 19:4) e ao observar que Deus “os fez homem e mulher” e os juntou em casamento. (6) O NT enfatiza que “cada um tenha a sua própria esposa, e cada uma, o seu próprio marido” (1 Co 7:2). (7) De igual forma, Paulo insistiu que o líder da igreja deveria ser “esposo de uma só mulher” (1 Tm 3:2; 12). (8) Na verdade, o casamento monogâmico é uma prefiguração do relacionamento entre Cristo e sua noiva, a Igreja (Ef 5:31-32).

A poligamia nunca foi estabelecida por Deus para nenhum povo, sob circunstância alguma. De fato, a Bíblia revela que Deus puniu severamente aqueles que a praticaram, como se pode ver pelo seguinte: (1) A primeira referência à poligamia ocorreu no contexto de uma sociedade pecadora em rebelião contra Deus, na qual o assassino “Lameque tomou para si duas esposas” (GN 4:19,23). (2) Deus repetidamente advertiu ou polígamos quanto às conseqüências de seus atos: “para que o seu coração se não desvie” de Deus (Dt 17:17; cf. 1 Rs 11:2). (3) Deus nunca ordenou a poligamia – como o divórcio, ele somente a permitiu por causa da dureza do coração do homem (Dt 24:1; Mt 19:8). (4) Todo praticante da poligamia na Bíblia, incluindo Davi e Salomão (1 Crônicas 14:3), pagou um alto preço por seu pecado. (5) Deus odeia a poligamia, assim como o divórcio, porque ela destrói o seu ideal para a família (cf. Ml 2:16).

Em resumo, a monogamia é ensinada na Bíblia de várias maneiras: (1) pelo exemplo precedente, já que Deus deu ao primeiro homem apenas uma mulher; (2) pela proporção, já que as quantidades de homens e mulheres que Deus traz ao mundo são praticamente iguais; (3) por preceito, já que tanto o AT como o NT a ordenam (veja os versículos acima); (4) pela punição, já que Deus puniu aqueles que violaram o seu padrão (1 Rs 11:2); e (5) por prefiguração, já que o casamento de um homem com uma mulher é uma tipologia de Cristo e sua noiva, a Igreja (Ef 5:31-32). Apenas porque a Bíblia relata o pecado de poligamia praticado por Salomão, não significa que Deus a aprove*.

*GEISLER, Norman L e HOWE, Thomas. Manual popular de dúvidas, enigmas e “contradições” da Bíblia. Traduzido por Milton Azevedo Andrade. São Paulo: Mundo Cristão, 1999. P. 191,192.

Fonte: Apologia

terça-feira, março 15, 2011

O filho prófugo

Por Marcos Granconato

Se eu fosse um mestre ao estilo de Jesus, contaria aos meus discípulos a seguinte parábola:

Havia uma mulher que tinha vários filhos. Certo dia, um deles decidiu estudar a história da mãe a fim de saber o que se passara com ela ao tempo da juventude. Em suas investigações, o moço descobriu que, tanto na infância como na juventude, sua mãe fora protegida por vários soldados que, com coragem e até à custa da própria vida, a defenderam de homens perversos que, com astúcia e crueldade, tentaram matá-la.

Prosseguindo na análise dos relatos antigos, o curioso filho ficou sabendo que, em tempos mais recentes, quando sua mãe já era uma mulher madura, inimigos terríveis mais uma vez se levantaram contra ela. Esses inimigos, porém, não eram violentos nem sanguinários. Antes, dedicavam-se a difamar a boa senhora dizendo que seu marido, agora ausente, na verdade nunca existira. Também a ridicularizavam, lançavam-lhe impropérios e atribuíam a ela os mais terríveis males da sociedade dos seus dias. De fato, diziam ser por causa dela que o mundo era tão ruim e estimulavam as pessoas a cuspir na boa senhora quando a vissem.

Terminada sua pesquisa, o filho refletiu acerca dos soldados antigos e, surpreendentemente, disparou: “Que péssimos soldados foram aqueles. Como puderam ser tão rigorosos a ponto de não respeitarem os agressores de minha mãe? Quanta rispidez e intransigência! Não é de estranhar que, tendo tais soldados por perto quando menina, minha mãe hoje seja, às vezes, tão rígida!”

Em seguida, o filho pensou nos difamadores de sua mãe, aqueles que tinham divulgado mentiras sobre ela em tempos mais recentes. Seu parecer chocou a todos: “Que homens magníficos foram eles! Que clareza de mente! Que perspicácia em perceber as falhas não só da minha mãe, mas também dos meus irmãos! E que visão nova e magnífica sobre meu pai! Daqui pra frente vou basear todas as minhas ideias no que esses gênios escreveram. Eles é que foram os verdadeiros amigos de meu pai!”

Ouvindo isso, os irmãos do jovem disseram aflitos: “Como podes tu dizer essas coisas? Tu que foste criado no seio de mãe tão honrosa, por meio de quem recebeste a própria vida? E como podes te insurgir contra a memória de soldados tão valorosos que, com sangue, suor e lágrimas, demonstraram tanto amor e cuidado por nossa mãe menina? Tu falas como um doido, tanto mais quando aplaudes justamente aqueles que, com suas mentiras, tentaram destruir não só o nome da nossa mãe, mas até a lembrança do nosso pai debaixo do céu.”

O jovem, porém, respondendo disse: “Vós nada sabeis! Sois intransigentes e radicais como aqueles malignos soldados do passado. Vossas palavras estão cheias de veneno e vossos olhos não podem ver, pois estais cegos. Vossas antigas formas de pensamento, tolices que vos foram inculcadas desde cedo em nossa casa, impedem que enxergueis a verdade ensinada pelos sábios críticos dessa velha caduca e cheia de deformidades que vós ainda chamais de mãe. Se, pois, não podeis suportar o que para mim é cristalino como a água, eis que vos digo o seguinte: doravante, buscarei outra mãe. Ficai vós, como meninos mimados, junto dessa senhora que, para mim, de nada mais serve.”

E, tendo dito isso, partindo, foi.

Quando ouvissem essas coisas, talvez meus discípulos dissessem: “Pastor, explica-nos a parábola do filho prófugo”. Então, eu responderia: “Vós sois assim tão tardios para entender? Atendei, pois, ao significado da parábola: a velha senhora é a Palavra de Deus, o verdadeiro evangelho proclamado pela santa igreja; os soldados são os pais da igreja e os reformadores do século 16; os críticos da mulher são os filósofos seculares mais recentes como Spinoza, Marx, Freud, Nietzsche e Sartre; o filho rebelde são os cristãos de hoje que adotam abordagens teológicas pós-modernas; os outros filhos são os que permanecem comprometidos com a Palavra e são chamados de fundamentalistas radicais pelos mestres pós-modernos. Ora, sempre que um cristão se insurge contra os defensores do Evangelho, admirando os inimigos da fé e buscando sabedoria neles, tal pessoa rompe com o cristianismo histórico e passa a buscar outros evangelhos, desonrando o Pai”.

Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!