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segunda-feira, agosto 26, 2013

sábado, novembro 05, 2011

A suficiência das Escrituras

Por Hernandes Dias Lopes 
 
A Reforma do século dezesseis foi um divisor de águas na vida da igreja e também na história da humanidade. A Reforma não foi uma inovação, mas uma restauração. Não foi a abertura de um novo caminho, mas uma volta às veredas antigas. Não foi a introdução de um novo evangelho, mas uma volta ao antigo evangelho. A Reforma foi uma volta à doutrina dos apóstolos, um retorno ao Cristianismo puro e simples. As verdades enfatizadas na Reforma podem ser sintetizadas em cinco “solas”: Sola Scriptura, Sola Fide, Sola Gratia, Solu Christu e Soli Deo Gloria. Vamos destacar agora o Sola Scriptura.

Todas as igrejas cristãs creem nas Escrituras e aproximam-se dela como Palavra de Deus. Porém, nem todas têm o mesmo conceito das Escrituras. A Bíblia não apenas contém a Palavra de Deus, a Bíblia é a Palavra de Deus. A Bíblia não é uma dentre as regras de fé e prática, mas nossa única regra de fé e prática. Destacaremos, aqui, três pontos importantes para a nossa reflexão.

Em primeiro lugar, as Escrituras são inerrantes. Jesus Cristo foi enfático em dizer que as Escrituras não podem falhar. Ele disse, também, que a Palavra de Deus é a verdade. Não há erros nas Escrituras. Não há contradição nos seus registros. Seus relatos não são mitológicos. A Palavra de Deus é fiel e verdadeira e digna de inteira aceitação. Nem uma das palavras de Deus pode cair por terra. Nenhuma de suas promessas pode fracassar. Pode passar o céu e a terra, mas a Palavra de Deus não vai passar. Ela permanece para sempre. Suas profecias se cumpriram, estão se cumprindo e cumprir-se-ão à risca. Deus conhece a história antes de ela acontecer. O próprio Deus que inspirou as Escrituras é quem dirige os destinos da história.

Em segundo lugar, as Escrituras são suficientes. Nada pode ser acrescentado às Escrituras. Ainda que um anjo venha do céu e pregue outro evangelho, além do que está registrado nas Escrituras, deve ser decisivamente rejeitado. Há dois desvios perigosos com respeito às Escrituras atualmente. O primeiro deles é o liberalismo teológico. Os teólogos liberais não creem na infalibilidade nem na suficiência das Escrituras. Aproximam-se dela não com fé, mas com suspeitas; não com humildade, mas com insolência; não com submissão, mas com rebeldia. Atribuem às Escrituras muitos erros. Afirmam que ela está cheia de falhas e que seus relatos históricos estão repletos de contradição. Afirmam que seus milagres não passam de mitos. Esses paladinos do engano e arautos da incredulidade retiram das Escrituras o que está nas Escrituras, atraindo sobre si mesmos a merecida punição de seu erro. O segundo desvio é o sincretismo religioso. Há muitos crentes que olham para as Escrituras como um livro mágico, usando-a apenas como uma espécie de amuleto religioso. Não a estudam com profundidade nem a aceitam como a única regra de fé e prática. Estão sempre buscando novas revelações e correndo atrás de novos sonhos e visões para nortear-lhes os passos. Se os liberais removem das Escrituras seu conteúdo, os adeptos do sincretismo acrescentam às Escrituras suas novas visões e revelações. Desta maneira, ambas as posições são um sinal de rebeldia contra Deus e uma evidência de insolente apostasia. Não precisamos de novas revelações. Tudo que precisamos saber para a nossa salvação, santificação e serviço está contido nas Escrituras. Devemos conhecê-la, obedecê-la e proclamá-la com fidelidade e senso de urgência.

Em terceiro lugar, as Escrituras são eficientes. As Escrituras não são apenas inerrantes e suficientes, elas são também eficientes. Elas realizam todo o propósito de Deus. Elas não voltam para Deus vazia. Elas são mais preciosas do que o ouro e mais doces do que mel. Elas são não apenas inspiradas, mas também úteis para toda a correção, repreensão e ensino. É por meio delas que Deus chama seus eleitos. É por meio delas que Deus santifica seu povo. É por meio delas que Deus consola seus filhos. É por meio delas que Deus fortalece a sua igreja e a equipada para cumprir sua missão.


domingo, maio 01, 2011

A Bíblia Não é Autoajuda

Por David Wells
Ok. Você quer saber como ler a Bíblia? Aí vai:

Há duas partes para isso. A segunda parte é o estudo real da passagem bíblica, mas, antes que você mesmo pense em fazer isso, você deve tomar o primeiro passo. E qual é? É preparar a si mesmo para fazer o estudo. Pode soar estranho para você, mas se não você tiver a atitude certa, vai perder tempo na passagem.

Então, qual é a atitude certa? É dizer a si mesmo que você está ali para ouvir de Deus, não para ouvir a si mesmo. Você está ali para ser tratado, desafiado, e, sim, mesmo repreendido por Deus, através da verdade de sua Palavra.

Escritura não é terapia

Se você é como eu, isso pode não ser o que você tem como primeira prioridade. Você pode estar pensando em suas dores, seu vazio, seus sentimentos de estar desconectado, em relações destruídas, e decepções. Eles são reais. Mas a questão é que estudar as Escrituras não é terapia. Estudar a Bíblia não é autoajuda. Nós não estamos ali para ouvir nossa própria voz chorando interiormente. Estamos ali para ouvir sua voz, que vem de fora de nossas experiências. E sua Palavra não é uma de muitas. É a única Palavra que tem existido desde toda a eternidade, porque vem do Deus eterno.

Deus, portanto, não está lá para nosso uso quando precisamos dele; estamos aqui na Terra para que ele nos use. Ele não está lá para nosso benefício como se ele fosse um produto; nós estamos aqui para seu serviço.

E você já percebeu que aqueles na Escritura que mais o serviram, mais sofreram fielmente, foram mais atribulados, e foram mortos? Querer conhecer a Deus é um negócio arriscado, portanto esqueça a leitura da Escrita de maneira que você possa se sentir melhor sobre você mesmo. Cristo, como aprendemos em As Crônicas de Nárnia, não é um leão domesticado. No entanto, ele é bom.

Não estamos aqui para nós mesmos

Portanto, prepare-se! Deus pode ser perturbador, inconveniente, e estar em desacordo com tudo que estamos pensando. Mas estamos diante da Escritura para ouvir isso dele. E a razão para estarmos aqui na terra é procurar sua glória, ao torná-lo central em nossas vidas; não estamos aqui pra cuidar dos nossos negócios.

Todos os dias que leio a Escritura, lembro a mim mesmo disto, porque todo dia eu me esqueço disto. Eu lembro a mim mesmo quando abro a página que lerei. Se me esquecer quem eu sou e porque eu sou, esqueço-me de me humilhar diante de Deus. A partir do momento em que me esqueço disso, o que ouço é apenas minha voz interna. Isso irá abafar sua voz, e não estarei melhor por ter lido sua Palavra.

Fonte: iProdigo

segunda-feira, janeiro 03, 2011

"Deus me disse..."

Por Mark Dever
Pastor da Capitol Hill Baptist Church e diretor executivo do ministério 9Marks

Eu fiquei perplexo (o que não acontece muitas vezes). Certo homem me disse que seu supervisor havia designado a ele a tarefa de elaborar um plano para a plantação de uma nova igreja, e que quando ele orou sobre isso, Deus o instruiu para usar as palavras de Cristo. Deixe-me esclarecer. Ele contou que Deus ordenara que em seu planejamento para essa nova igreja, ele deveria consultar, refletir e citar apenas palavras que Jesus havia dito.

Esse homem era um empregado de tempo integral em uma organização cristã. Era evidentemente cristão. Além disso, ao contrário de outros empregados dessa organização, tinha um mestrado em teologia. Obtido em um seminário evangélico. Lá ele foi, como nós imaginamos, treinado cuidadosamente sobre a Bíblia e sobre teologia. Também devemos imaginar que ele trabalhou de alguma forma liderando uma igreja local, já que agora ocupava uma posição de muita responsabilidade. Foi essa pessoa que estava diante de mim e me disse com sincera piedade e sinceridade verdadeira que Deus o ordenou a consultar apenas as palavras de Cristo quando estivesse planejando uma nova igreja.

Se você já foi ao circo e viu aquela típica entrada dos palhaços, em que um carro minúsculo surge no meio do palco, e de dentro dele sai uma porção de palhaços que logo se espalham pelo meio da platéia causando risadas e até alguns sustos, você tem alguma idéia do que aconteceu na minha cabeça quando eu ouvi isso. Mas sem a parte engraçada. “Jesus mencionou a igreja explicitamente apenas duas vezes!”, pensei. “Há mais de 20 outros livros no Novo Testamento que são cartas com instruções a igrejas!”, pensei. “Quem foi que te deu tanta responsabilidade?”, pensei. “O que foi que te ensinaram no seminário?”, pensei. “Como foi que Deus te disse isso?”, pensei. “O que mais ‘Ele’ falou?”, pensei.

E tinha mais. Eu não disse nada, em parte pela surpresa, em parte pelo medo do que eu pudesse dizer. Após algumas perguntas respondidas com grunhidos, decidi dizer alguma coisa simples sobre como havia outros livros do Novo Testamento que o Espírito de Cristo inspirou particularmente para direcionar igrejas, e que eu esperava que ele também levasse em conta, e logo dei um jeito de sair dali. Espero que minha surpresa diante disso tudo não tenha ficado muito evidente.

Situações como essa – e muitas outras – que aconteceram nos últimos anos que me encorajou a refletir sobre a importância da doutrina da suficiência da Escritura. Essa doutrina foi um dos pontos fundamentais da Reforma Protestante. Uma das maiores disputas entre Roma e os Reformadores era se Deus havia de fato prometido que continuaria provendo instruções inspiradas e inerrantes através de Pedro e seus sucessores. Roma afirmava que era isso que Jesus havia ensinado em Mateus 16. Os reformadores negavam isso, dizendo que, pelo contrário, a Escritura por si só era suficiente para instrução, mediante a iluminação de nossas mentes pelo Espírito Santo. Eles ensinaram que as Escrituras são claras e suficientes. Questões importantes seriam claras ao entendimento, não obscuras. E as Escrituras, se vistas como um todo, seriam suficientes para nossa necessidade de orientação divina. Existem muitas outras questões relacionadas a isso, mas o que devemos levar em conta aqui é simplesmente que as Escrituras são suficientes.

Enquanto o protestantismo Evangélico como um todo continuou a ensinar assim – margeado pela declaração de autoridade da igreja de Roma e a tradição pela direita, e declarações subjetivas de autoridade da “luz interior” de cada um pelos Quakers pela esquerda – surgiu outro pensamento em meio ao evangelicalismo. Mais em nossa vida prática do que na teologia escrita, surgiu a idéia de que a Palavra escrita de Deus deve se tornar a Palavra de Deus a nós pessoalmente por meio de algum tipo de poderoso encontro com ela ou com seu significado. Isso não acontece em meio à leitura de textos sobre divindade, como muitos teólogos Neo-Ortodoxos como Karl Barth imaginavam, mas prática comum e corriqueira. Lembro-me de outro amigo que participou de um grupo evangélico de estudantes, onde ficaram por duas horas cantando, orando sinceramente e clamando que Deus falasse com eles, enquanto por todo esse tempo suas Bíblias ficaram fechadas em seus assentos. Esse é o problema que a prática do “Deus me disse” com a suficiência da Escritura. E se nossos pastores e líderes não entendem que a Escritura é suficiente, não devemos nos surpreender os membros de nossas igrejas, em uma sincera busca pela verdade, forem até Roma, de um lado, ou ao subjetivismo liberal, do outro, buscando algum tipo de autoridade que seja suficiente. Os Mórmons, em particular, se aproveitam da fraqueza dos evangélicos nesse ponto de terem pouca instrução a respeito da suficiência da Escritura.

Essa questão é vital para nós pastores, particularmente se formos pastores que valorizam a centralidade da exposição bíblica em nosso ministério. Um entendimento da suficiência da Escritura é o contexto em que afirmamos, mantemos e praticamos a centralidade da Escritura na vida da igreja.

Vinte anos atrás, em meio à enxurrada de escritos sobre a inerrância da Escritura, pouco foi escrito sobre a suficiência da Escritura. Ela apareceu em escritos sobre a visão dos Reformados sobre a Escritura. Então você podia ler um grande artigo de R. C. Sproul, “Sola Scriptura: Crucial ao Evangelicalismo”, no livro Os Fundamentos da Autoridade Bíblica, editado por James Montgomery Boice. Mais recentemente, Wayne Grudem escreveu um capítulo muito bom sobre a suficiência da Escritura em sua Teologia Sistemática. As últimas páginas são dedicadas às aplicações práticas da doutrina, e há muita sabedoria nelas. Ele afirma claramente que “quando estamos enfrentando problemas de genuína importância em nossa vida cristã, devemos buscar a Escritura com a confiança que Deus nos proverá orientação através dela para o nosso problema”.

Se vamos nos comprometer com o pastoreio das ovelhas, levando-as à Palavra de Deus, devemos estar aptos a responder o que significa a suficiência das Escrituras. Devemos saber, considerar, explicar e ensinar que as Escrituras são suficientes. Eu sei que elas são. Deus me disse:

Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra. (2 Timóteo 3.16-17)

Fonte: Iprodigo
Traduzido por Filipe Schulz

domingo, março 07, 2010

Era ou não Samuel? (1Sm 28.7-25)

Uma frequente discussão entre evangélicos é se era ou não Samuel quem estivera presente no episódio de Saul e a médium de En-Dor. Abaixo o texto bíblico (NVI) e então, um trecho da apostila de Teologia Bíblica do Antigo Testamento (TBAT), por Carlos Osvaldo, que eu creio ter escrito muito bem sobre este tema. O negrito no texto é meu.

7 Então Saul disse aos seus auxiliares: "Procurem uma mulher que invoca espíritos, para que eu a consulte". Eles disseram: "Existe uma em En-Dor".8 Saul então se disfarçou, vestindo outras roupas, e foi à noite, com dois homens, até a casa da mulher. Ele disse a ela: "Invoque um espírito para mim, fazendo subir aquele cujo nome eu disser".9 A mulher, porém, lhe disse: "Certamente você sabe o que Saul fez. Ele eliminou os médiuns e os que consultam os espíritos da terra de Israel. Por que você está preparando uma armadilha contra mim, que me levará à morte?"10 Saul jurou-lhe pelo SENHOR: "Juro pelo nome do SENHOR que você não será punida por isso". 11 "Quem devo fazer subir?", perguntou a mulher. Ele respondeu: "Samuel". 12 Quando a mulher viu Samuel, gritou e disse a Saul: "Por que me enganaste? Tu mesmo és Saul!" 13 O rei lhe disse: "Não tenha medo. O que você está vendo?" A mulher respondeu: "Vejo um ser que sobe do chão".14 Ele perguntou: "Qual a aparência dele?" E disse ela: "Um ancião vestindo um manto está subindo". Então Saul ficou sabendo que era Samuel, inclinou-se e prostrou-se, rosto em terra. 15 Samuel perguntou a Saul: "Por que você me perturbou, fazendo-me subir?" Respondeu Saul: "Estou muito angustiado. Os filisteus estão me atacando e Deus se afastou de mim. Ele já não responde nem por profetas nem por sonhos; por isso te chamei para me dizeres o que fazer". 16 Disse Samuel: "Por que você me chamou, já que o SENHOR se afastou de você e se tornou seu inimigo? 17 O SENHOR fez o que predisse por meu intermédio: rasgou de suas mãos o reino e o deu a seu próximo, a Davi. 18 Porque você não obedeceu ao SENHOR nem executou a grande ira dele contra os amalequitas, ele lhe faz isso hoje. 19 O SENHOR entregará você e o povo de Israel nas mãos dos filisteus, e amanhã você e seus filhos estarão comigo. O SENHOR também entregará o exército de Israel nas mãos dos filisteus". 20 Na mesma hora Saul caiu estendido no chão, aterrorizado pelas palavras de Samuel. Suas forças se esgotaram, pois ele tinha passado todo aquele dia e toda aquela noite sem comer. 21 Quando a mulher se aproximou de Saul e viu que ele estava profundamente perturbado, disse: "Olha, tua serva te obedeceu. Arrisquei minha vida e fiz o que me ordenaste. 22 Agora, por favor, ouve tua serva e come um pouco para que tenhas forças para seguir teu caminho".23 Ele recusou e disse: "Não vou comer". Seus homens, porém, insistiram com ele, e a mulher também; e ele os atendeu. Ele se levantou do chão e sentou-se na cama. 24 A mulher matou depressa um bezerro gordo que tinha em casa; apanhou um pouco de farinha, amassou-a e assou pão sem fermento. 25 Então ela serviu a Saul e a seus homens, e eles comeram. E naquela mesma noite eles partiram.

Este famoso incidente é uma fonte de perplexidade para os evangélicos e uma falsa mina de ouro para os chamados espiritualistas. Estes, buscam aqui apoio para o mediunismo, entendendo que a médium foi capaz de trazer Samuel dos mortos. A reação da médium (v.12), todavia, revela o terror de que foi possuída quando percebeu que a aparição não era aquela à qual estava acostumada, fosse essa um ambuste ou uma manifestação demoníaca. Além disso, o conteúdo dessa entrevista fere frontalmente o perfil psicológico das sessões espiritas, onde o tom é sempre de conforto, de reafirmação e otimismo.

Já os evangélicos insistem em que não poderia ser Samuel pois sua aparição violaria o mandamento de não consultar os mortos (Lv 20.27; Dt 18.10-12). Argumentam ainda, que o relato de 1 Samuel 28.7-25 é resultado do testemunho ocular dos servos de Saul, que eram supersticiosos e indignos de confiança. (1Sm 21.7; 26.6). O relato, portanto, seria incorreto. Argumentam ainda, à luz da história do rico e Lázaro (Lc 16.20-31), que Samuel não poderia ter voltado, porque Jesus declarou que tal volta é impossível. Um último argumento é que a profecia e a cronologia descritas na entrevista de En-Dor não se cumpriram, pois o Espírito anunciara a morte de Saul e de todos os seus filhos no dia seguinte. Esta última não teria se cumprido porque há um intervalo de pelo menos três dias entre o encontro com a médium e a morte de Saul. Além disso, alegam alguns estudiosos evangélicos, os filhos de Saul não morreram todos no combate.

Uma outra abordagem me parece mais convincente. Em primeiro lugar, manter a integridade da narrativa ao invés de rebaixar este capítulo a uma espécie de sub-inspiração. Quando opiniões ou relatos errôneos são inseridos na narrativa bíblica os autores cuidam para que haja alguma indicação de que tal ocorreu (cf. a mulher de Tecoa em 2Sm 14). Em segundo lugar, reconhecendo que há claras proibições divinas quanto à necromancia, e que a norma é a impossibilidade de retorno dos espíritos dos mortos, percebemos também que Deus, em Sua soberana vontade, suspende temporariamente algumas de Suas leis, desde que isso não fira Seu caráter santo. Assim é que, apesar de estar "ordenado aos homens morrer uma única vez, e depois disso o juizo" (Hb 9.27), o filho da sunamita, a filha de Jairo e Lázaro de Betânia (entre outros) foram ressuscitados em seus corpos naturais e morreram pela segunda vez! Isso se aplica também ao fato de Deus ter permitido que Samuel aparecesse para cumprir Seus soberanos propósitos nas vidas de Saul e Davi.

Em terceiro lugar, algumas "pistas" do autor de Samuel, que foi guiado pelo Espírito Santo (2Pe 1.20-21), sugerem que Deus usou sua narrativa para deixar clara aos leitores a completa rejeição de Saul. A menção ao manto (em hebraico me'il) nos remete ao incidente da rejeição (cf. 15.27-28), que foi anunciado de modo absoluto e inescapável em 28.17. As palavras e os objetos aqui mencionados espelham o incidente do manto rasgado, em que Samuel anuncia que o reino seria arrancado das mão de Saul. A mensagem é clara: Saul já passou do ponto de retorno, não há mais esperança. Ninguém, nem os vivos nem os mortos, poderá ajudá-lo a escapar do juízo de Deus. Esta mensagem por si só já elimina a acusação falsa de que defender a aparição de Samuel é declarar que o espiritismo é aceitável. Algumas vezes Deus permite o erro para ensinar mais dramaticamente as suas terríveis consequências.

Em quarto lugar, a acusação de imprecisão histórica revela pouca sensibilidade ao estilo de narrativa de 1 e 2 Samuel, que alterna Saul e Davi para fazer contrastes entre o rei rejeitado e o rei aprovado. Nesta divisão, por exemplo, Saul não obtem qualquer resposta de Deus (pois havia expulso o sumo sacerdote e rejeitado os profetas), ao passo que Davi tem comunicação frequente e positiva com o Senhor (30.7-8). Assim, dizer que Samuel errou a predição pois Saul não teria morrido senão três dias depois da famosa entrevista é ignorar o uso frequente de contraste, não de cronologia, como o princípio dominante da narrativa. Os três dias são referentes a Davi, e dizem respeito ao que aconteceu entre os filisteus enquanto Saul preparava seu exército próximo aomonte Giboa. En-Dor ficava a uma distância pequena da cena de batalha, e Saul teria facilmente voltado às suas linhas a tempo para a batalha fatídica. De passagem, ele teve de atravessar as linhas inimigas, o que mostra que, apesar de desesperado, não era covarde nem estava mentalmente incapacitado. Quanto aos filhos de Saul, Samuel não afirmou que TODOS morreriam, incorrendo assim um erro. Somente quem já pressupõe falsidade da narrativa é que vê a afirmação do profeta abrangendo todos os filho de Saul. Um conhecimento mais preciso de história ajudaria a entender que os monarcas não levavam todos os filhos à batalha, evitando assim a extinção da dinastia.

Por fim, o suposto argumento teológico de Samuel não teria dito a Saul que este se acharia no mesmo lugar que ele, dada a condição espiritual de cada um, revela insensibilidade ao progresso da revelação. Mesmo adimitindo que Samuel já estivesse no seio de Abraão (i.e., em comunhão com Abraão [e Deus]), a narativa histórica foi feita de acordo com a revelação concedida por Deus naquela época, que apesar de correta, era incompleta. Saul estaria com Samuel na mesma esfera de existência, que o Antigo Testamento descreve como SHEOL. Estabelecer uma definição teológica absoluta nesta passagem é impor a teologia do Novo Testamento, em lugar de deixar esta último falar por si. Tal colocação revela outra pressuposição tradicional entre evangélicos: a de que Saul não podria ir para o "céu," por ter cometido suicídio, questão que permanece aberta a discussão.

À luz destas observações, é possível concluir que Samuel de fato apareceu, soberanamente enviado por Deus para revelar Sua inflexível determinação de julgar Saul por sua rebeldia. A passagem de maneira nenhuma ensina que tal prática é aceitável perante Deus ou que possa repetir-se hoje. Ensina, isto sim, que a obediência a Deus não é uma questão de conveniência humana; quem escolhe adiar a obediência,na esperança de um tempo mais apropriado ou de circunstâncias mais convenientes, poderá se arrepender amarga e eternamente de tal escolha.


Fonte:
PINTO, Carlos Osvaldo. Telogia Bíblica do Antigo Testamento I. Apostila preparada para os alunos do Seminário Bíblico Palavra da Vida (SBPV), 2006.

quinta-feira, setembro 17, 2009

Declaração Pessoal de Fé: Bibliologia

A Bíblia se constitui em 66 partes na versão portuguesa, em duas grandes divisões que chamamos de Antigo e Novo Testamentos. As Escrituras originais não possuem erros e são a suprema e final autoridade da criatura feita segunda à imagem e semelhança de Deus. Na Bíblia está expressa a eterna vontade de Deus (Rm 3.2, 1Pe 1.25), grande parte com promessas já cumpridas (Lc 24.44), que foi revelada de diversas formas por diferentes pessoas, todos instrumentos dEle, do Espírito Santo, quem os inspirou (2Tm 3.16) para a obra do autor Deus (Hb 1.1, 2Pe 1.21). Sendo ela mais magnífica do que obras visíveis (2Pe 1.18-19), a palavra de Deus, que também chamamos de Bíblia, tem por finalidade revelar os propósitos dEle ao homem pecador, mostrando também o poder da salvação em Cristo Jesus (Rm 1.16), proporcionando crescimento e perfeição ao homem reconhecedor da graça divina (2Tm 3.16-17), mantendo então nossa esperança (Rm 15.4, 1Pe 2.15). Somos instruídos por ela (Sl 119.105) e devemos ser fiéis ao aprendizado que ela nos traz (Sl 1.2; At 17.11; 1Co 4.2), pois é perfeita e digna por sua procedência (Sl 19.7-9). Ela nos mostra as obras de Deus no passado para que conheçamos mais a Deus (A.T.), e revela o necessário do futuro para que perseveremos na obediência (Mt 24, 42-44, 1Ts 5, 1Co 15, Ap). A Bíblia deve ser interpretada segundo a própria Bíblia (Is 8.20), especialmente observada pela pessoa de Jesus Cristo (Mt 5.17-18; Jo 5.39), sendo Ele a convergência dos Escritos anteriores (Lc 24.27).